Bruxelas – Em um movimento que redesenha, peça por peça, o tabuleiro estratégico da política europeia, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução com 392 votos a favor que define a linha mestra para futuras decisões em matéria de política externa e defesa.
O documento denuncia explicitamente o recurso a pressões comerciais e a intimidações económicas por parte dos Estados Unidos contra a Dinamarca e outros Estados-membros, qualificando tais práticas como formas de coerção. A Eurocâmara deixa claro que o risco de uma guerra comercial com Washington não a intimida: as ambições norte-americanas sobre a Groenlândia não podem converter-se num instrumento para fragmentar a UE, e por isso é exigida uma resposta comum e determinada dos governos europeus.
Mais além do Teatro Árctico, a resolução descreve a emergência de um verdadeiro “arco de instabilidade” que se estende da Ucrânia ao Cáucaso, do Médio Oriente ao Sahel. Nesta tectónica de poder, a ampliação da União Europeia é apresentada não apenas como uma opção política, mas como um investimento estratégico no futuro da segurança europeia — uma expansão que fortalece os alicerces da estabilidade regional.
Quanto à defesa, a Eurocâmara assume uma postura de equilíbrio entre a reafirmação do compromisso com a NATO e a necessidade de concretizar uma capacidade de defesa autónoma da União. Como descrevi no meu estreito olhar geopolítico, trata-se de transformar o que durante duas décadas permaneceu sobretudo no papel em instrumentos operacionais: “Por quase vinte anos, a política de segurança e defesa comum da UE existiu em grande parte apenas no papel: é tempo de a transformar em realidade”, afirmou Thijs Reuten (S&D, Holanda), relator do documento.
O texto remete explicitamente ao artigo 42.7 do Tratado sobre a União Europeia, que estabelece a obrigação de assistência entre Estados-membros no caso de agressão armada. Esta invocação não é retórica: é a evocação de uma cláusula que funciona como uma peça nuclear do contrato de defesa coletiva europeu, um lembrete de que a solidariedade se mede também na prontidão e na capacidade de resposta conjunta.
Do ponto de vista estratégico, a resolução representa um movimento calculado no grande jogo transatlântico: ao mesmo tempo que preserva os laços tradicionais com os aliados atlânticos, busca ampliar a autonomia estratégica da UE. É um movimento que lembra uma jogada de xadrez — proteger o rei sem deixar de controlar o centro do tabuleiro.
Na minha leitura, a iniciativa do Parlamento demonstra uma maturação da diplomacia europeia: menos vocabulário simbólico e mais arquitectura prática. A UE procura agora consolidar mecanismos concretos de dissuasão e apoio mútuo, alinhando sua política externa e de defesa com a realidade dos riscos que orbitam o continente.
Em suma, a resolução aprovada em Estrasburgo não é apenas um protesto contra táticas de pressão externas; é uma proposta estratégica para que a União transforme princípios em capacidades tangíveis, fortalecendo os alicerces frágeis da diplomacia europeia num momento em que o mapa geopolítico exige decisões claras e coordenadas.






















