Bruxelas — A poucos dias da Dia Internacional da Mulher, a Comissão Europeia apresentou, em 5 de março, a nova Estratégia para a Igualdade de Gênero 2026–2030. Em conferência de imprensa, as comissárias Hadja Lahbib (Paridade, Preparação e Gestão de Crises) e Roxana Mînzatu (Competências, Educação, Cultura, Trabalho e Direitos Sociais) expuseram um programa ambicioso que pretende abordar a igualdade de gênero “em todos os aspetos da vida” e reforçar a resposta comunitária frente à violência contra as mulheres, com atenção especial às ameaças contemporâneas como a cyberviolência e os riscos associados à inteligência artificial (IA).
Na apresentação, Lahbib citou dados preocupantes: uma recente análise da Agência da UE para os Direitos Fundamentais aponta que uma em cada três mulheres europeias foi vítima de alguma forma de violência de gênero, enquanto estatísticas do Eurostat indicam cerca de 18 femicídios por semana em toda a União. Esse quadro reforça a urgência de medidas coordenadas a nível europeu.
Entre as prioridades da Estratégia está o combate à violência digital. A comissária sublinhou que as meninas e jovens são desproporcionalmente afetadas, observando que 99% das imagens pornográficas alteradas por IA retratam mulheres. Para enfrentar este fenómeno, o executivo comunitário propõe um conjunto de medidas destinadas a combater deepfakes e deepnudes sexualmente explícitos, bem como melhorar a proteção online por meio de um quadro regulatório estruturado junto das grandes plataformas, ancorado nas salvaguardas previstas pelo Digital Services Act.
Um ponto político central da Estratégia é a definição jurídica do crime de violação: o documento apoia a definição de estupro como qualquer ato sexual praticado sem o “consentimento livre e atual” de todas as partes envolvidas, e insiste para que todos os Estados-membros adotem legislação nacional alinhada com esse princípio.
Outra novidade significativa, em comparação com o plano 2020–2025, é o tratamento da saúde feminina como uma área política autónoma. A Comissão anunciou uma cooperação com a Organização Mundial da Saúde (UE-OMS) para melhorar a qualidade e a acessibilidade dos cuidados de saúde às mulheres, bem como novas iniciativas para colmatar lacunas na investigação médica, diagnóstico e tratamentos sensíveis ao gênero, em cooperação com a Agência Europeia de Medicamentos (EMA).
Há também a proposta de revisão dos ensaios clínicos para assegurar que reflitam a diversidade populacional, com atenção particular a mulheres e grupos vulneráveis. Foi igualmente apresentado o projeto SHIELD, orientado a melhorar o acesso à saúde sexual e reprodutiva. Lahbib evocou a voz da sociedade civil — a iniciativa “My Voice, My Choice” — ao afirmar que o apelo por acesso a um aborto seguro foi ouvido, não obstante as controvérsias suscitadas por respostas consideradas evasivas em alguns fóruns.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento que busca reforçar os alicerces da diplomacia normativa europeia: ao combinar regulamentação tecnológica, proteção jurídica e investimentos em saúde pública, a Comissão procura redesenhar, em termos de política pública, as fronteiras invisíveis que hoje moldam a liberdade e a segurança das mulheres no espaço digital e físico. Como num jogo de xadrez, a União procura antecipar movimentos adversos — das plataformas tecnológicas aos esforços de retrocesso legislativo — e consolidar um eixo de influência que proteja direitos fundamentais.
Resta saber como cada Estado-membro interpretará e transporá estas orientações para as suas legislações nacionais. A eficácia da Estratégia dependerá, em última instância, da capacidade da União de converter diretrizes em normas operacionais e de garantir recursos e mecanismos de monitorização fiáveis. Trata-se, portanto, de um plano ambicioso cuja implementação será o verdadeiro teste da sua utilidade prática.






















