Epstein files raspam as margens da União Europeia; Šefčovič nega envolvimento
Bruxelas — Os vastos documentos conhecidos como Epstein files, recentemente parcialmente desclassificados, estendem sua sombra até as instituições europeias. Entre nomes já citados — como Miroslav Lajčák e Peter Mandelson — aparece agora o do comissário europeu para o Comércio, Maroš Šefčovič, membro do Colégio de Comissários desde 2019.
Em uma leitura formal feita pelo porta-voz da Comissão, Balazs Ujvari, nesta manhã, foi apresentada a declaração de repúdio do próprio comissário. Šefčovič afirmou estar “sconcertado” com a menção de seu nome e rejeitou categoricamente qualquer insinuação. Segundo Ujvari, Šefčovič negou ter mantido “qualquer contacto direto ou indirecto, comunicação ou encontro com Epstein”, bem como ter autorizado que seu nome fosse apresentado a Epstein por terceiros, incluindo o ex-diplomata Lajčák. “Qualquer menção desse tipo foi feita sem o meu conhecimento”, declarou o porta-voz, citando o comissário.
O aparecimento do nome de Šefčovič nos arquivos surge em conexão com referências ao seu conterrâneo Miroslav Lajčák, ao tempo ministro dos Negócios Estrangeiros da Eslováquia e conselheiro de segurança nacional do então primeiro-ministro Robert Fico. Sobre Lajčák, a Comissão foi clara: estas matérias são da competência das autoridades nacionais, cabendo a elas as eventuais verificações e procedimentos.
O episódio de Mandelson possui natureza distinta. O veterano político britânico trocou numerosas mensagens com Jeffrey Epstein entre 2004 e 2008, período em que exercia funções como comissário europeu. Segundo Ujvari, “novos documentos” referentes a Mandelson foram disponibilizados e a Comissão avaliará se há indícios de violação das regras internas no contexto desses materiais.
Os arquivos, parte de um enorme conjunto de cerca de três milhões de páginas recentemente tornadas públicas, desenham um mapa complexo onde figuras políticas e privadas aparecem em notas, emails e listas. Para as instituições europeias, trata-se de um teste de resiliência institucional e de reputação: como reagir a um movimento súbito que mexe nos alicerces frágeis da diplomacia e reconfigura, ainda que simbolicamente, linhas de influência?
Na linguagem calma e calculista do tabuleiro geopolítico, este episódio representa um lance que força atores a reposicionarem peças. A Comissão, liderada por Ursula von der Leyen, ganha — ou perde — com a rapidez e transparência das respostas. Šefčovič, conhecido por seu papel-chave nas negociações sobre tarifas com os Estados Unidos, busca preservar tanto sua credibilidade pessoal quanto a estabilidade das instituições que representa.
Do ponto de vista prático, as próximas etapas dependem de duas frentes: a disposição das autoridades nacionais para investigar eventuais menções envolvendo cidadãos e ex-governantes, e a diligência da própria Comissão em escrutinar as implicações internas, como já anunciado no caso Mandelson. A prudência diplomática exige investigação rigorosa mas também moderação retórica, para não transformar insinuações em redesenho precipitado das fronteiras políticas.
Enquanto os arquivos continuam a revelar detalhes, a UE enfrenta um dilema clássico de poder: proteger a integridade das suas instituições sem ceder ao espetáculo público que pode deformar percepções e decisões — um movimento decisivo no tabuleiro que requer precisão e ponderação.
















