Bruxelas — Em 2024 as centrais europeias dedicadas à energia nuclear produziram um total de 649.524 GWh de eletricidade, um aumento de 4,8% em relação a 2023. O dado, divulgado pelo Eurostat, revela um movimento de recuperação que, contudo, exige leitura cautelosa: o avanço foi impulsionado, em grande medida, pelo dinamismo francês, acompanhado por incrementos menores na Suécia e na Eslovênia.
Do total gerado, apenas 12 dos 27 Estados-membros produziram eletricidade de origem nuclear em 2024, e essa produção representou 23,3% da eletricidade da União Europeia. No mesmo período, a França destacou-se com 380.451 GWh, equivalente a 58,6% de toda a produção nuclear da UE. Em termos relativos, a Espanha foi o segundo maior produtor (54.510 GWh; 8,4% do total da UE), seguida pela Suécia (aproximadamente 5% do total).
O dado francês merece análise estratégica: a recuperação observada desde 2021 não decorreu da construção de novos reatores, mas sim de um esforço concentrado para devolver à plena capacidade reatores existentes. Segundo o Eurostat, 67,3% de toda a eletricidade produzida em território francês provém do setor nuclear — uma fatia que só encontra paralelo na pequena Eslováquia, onde cinco reatores chegam a sustentar cerca de 61% da produção elétrica nacional.
No entanto, o resultado de 2024 precisa ser visto à luz de uma tendência de longo prazo. Desde 2007 a produção nuclear na Europa atravessa uma fase de declínio: os 649 mil GWh de 2024 permanecem bem abaixo dos níveis observados nos anos 1990 e no início dos anos 2000. Parte dessa perda estrutural de capacidade deve-se ao encerramento progressivo de centrais em alguns países — exemplo notório foi a Alemanha, que até 2022 produzia anualmente perto de 150 mil GWh e completou o desligamento total das suas usinas em 2023.
O que o número de 2024 indica, em termos geopolíticos, é um redesenho assimétrico no mapa energético europeu: há um claro eixo de influência nuclear centrado na França, enquanto muitos parceiros se mantêm em médias estáveis ou declinantes. No tabuleiro de xadrez da segurança energética, Paris move-se para consolidar capacidades existentes, mitigando vulnerabilidades, sem, contudo, restabelecer a paridade perdida em relação às décadas anteriores.
Para a União Europeia, essa realidade levanta questões estratégicas: como equilibrar soberania energética, metas de descarbonização e diversidade de fontes? O aumento pontual de produção não elimina os desafios de integração, interconexão e resistência política interna a novas infraestruturas nucleares. Os alicerces da diplomacia energética europeia permanecem frágeis, exigindo cooperação técnica e decisões políticas coordenadas.
Em suma, 2024 traz um pequeno movimento de avanço para a produção nuclear na UE — um movimento liderado pela França que altera, de forma limitada, a tectônica de poder energético no continente. Os números apontam para uma recuperação concentrada, não para um renascimento generalizado da era nuclear clássica. Resta acompanhar se esse ganho se consolidará ou se será apenas um lance tático num jogo mais amplo de transição energética.
Fonte: Eurostat (dados divulgados em 29 de janeiro de 2026)






















