Bruxelas — Um movimento estratégico de longo alcance no tabuleiro geopolítico: assim deve ser lida a virada na percepção europeia sobre os Estados Unidos com a administração de Trump. Segundo o levantamento mais recente do instituto Polling Europe Euroscope, 64% dos europeus entrevistados expressam uma opinião negativa sobre o presidente norte-americano, e 51% afirmam que os Estados Unidos não são mais um país amigo — contra apenas 25% que os consideram aliados.
Os números refletem não apenas uma desaprovação pessoal: registram também um redesenho das referências políticas e estratégicas entre a União Europeia e Washington. Em relação ao último levantamento, realizado em outubro de 2024, a confiança declarada no papel dos EUA como parceiro sofreu uma queda de 36 pontos percentuais — um declínio rápido que aponta para uma ruptura de percepções tão profunda quanto os abalos tectônicos nas linhas de influência transatlântica.
Detalhes da amostra e metodologia conferem robustez aos dados: a pesquisa foi conduzida online por método CAWI (Computer Assisted Web Interview) sobre um painel representativo de cidadãos com 18 anos ou mais nos 27 países da União Europeia. Foram completadas 5.273 entrevistas, com distribuição proporcional à população dos Estados-Membros e ajustes que permitem análises paneuropeias e segmentadas — por Alemanha, França, Itália, Espanha e Polônia — além de recortes por Europa Oriental, Meridional e Setentrional. As cotas de idade e género foram calibradas com base nos parâmetros mais recentes do Eurostat.
Em uma escala de 0 a 10, o índice médio de aprovação de Trump ficou em 3,1, recuando 0,4 pontos desde outubro de 2024. Entre países, França e Itália aparecem com os índices mais baixos (2,5 cada), seguidas pela Alemanha (2,8). Espanha (3,3) e Polônia (4,2) situam-se acima da média europeia. No espectro político do Parlamento Europeu, a desaprovação é especialmente acentuada entre as bancadas de esquerda — The Left e Socialistas & Democratas (S&D) marcam 1,8; os Verdes, 1,9 — enquanto os grupos mais à direita exibem avaliações relativamente mais favoráveis: ECR (5,1), Patriotas por Europa (PfE, 4,5) e Europa das Nações Soberanas (ESN, 4,7). Os não inscritos registraram 3,6.
Importa ressaltar que 47% dos inquiridos apontam diretamente Trump como a causa principal das tensões atuais entre a União Europeia e os Estados Unidos, e acreditam que essa fratura só será resolvida após o término de seu mandato. É uma leitura que sugere não um choque episódico, mas uma alteração estrutural nas expectativas europeias quanto ao papel de Washington.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um reposicionamento que não se resolve apenas por retórica: afeta alicerces da diplomacia, capacidades de coordenação em segurança e as empresas que operam no espaço transatlântico. Em linguagem de xadrez diplomático, foi feita uma jogada que alterou o centro de gravidade do tabuleiro; resta agora ver como aliados e adversários recalibrarão seus lances nas próximas partidas.
Como analista, não confio em interpretações apressadas. Estes resultados exigem que decisores europeus trabalhem para mitigar os riscos de um distanciamento prolongado, preservando canais de diálogo e redes de cooperação onde for possível — sem, contudo, subestimar a profundidade da mudança de clima transatlântico.






















