Mette Frederiksen anunciou ao Folketing que a Dinamarca voltará às urnas em um mês: as eleições antecipadas foram marcadas para 24 de março, encurtando uma legislatura cuja vigência natural terminaria em 31 de outubro. A decisão, formalizada após consulta ao rei Frederico X, representa um movimento decisivo no tabuleiro político nacional.
Embora a primeira-ministra não tenha declarado explicitamente todas as razões por trás da convocação antecipada, a manobra é ao menos parcialmente explicável pela recente recuperação nas pesquisas de intenção de voto do seu partido, os Sociais-democratas. No último mês e meio, o partido subiu de cerca de 18% em dezembro para 22% na sondagem mais recente — um ganho que, se confirmado nas urnas, poderia garantir uma maioria relativa com vantagem de aproximadamente nove pontos percentuais sobre o principal adversário, o Partido Popular Socialista, ligado à esquerda ecologista e estimado em 13%.
O ressurgimento eleitoral dos Sociais-democratas surpreendeu analistas que esperavam um cenário adverso para Frederiksen, após a severa derrota nas eleições municipais. Em dezembro, o partido perdeu terreno em 87 dos 98 municípios que foram a voto e sofreu uma derrota simbólica em Copenhague — uma cidade governada ininterruptamente pelos sociais-democratas desde 1903 e agora entregue ao Partido Popular Socialista.
O motor dessa reviravolta é, paradoxalmente, uma questão de política externa: as reiteradas declarações do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma possível anexação ou compra da Groenlândia remodelaram a perceção pública sobre soberania e segurança territorial. Desde os primeiros pronunciamentos de Washington sobre a ilha semi-autônoma, Frederiksen adotou um tom firme e assertivo na defesa da integridade do Reino da Dinamarca — postura que, aos olhos do eleitorado, reconstruiu parte da autoridade perdida do executivo.
No plano doméstico, a primeira-ministra vinha sendo duramente criticada pela gestão da crise habitacional e por um deslocamento parcial à direita em temas como imigração — uma guinada que se manifestou também em alinhamentos exteriores, como a proximidade com a presidente do Conselho italiano, Giorgia Meloni, em pautas sobre migração irregular. Diante desse quadro, Frederiksen direcionou-se para a diplomacia e a segurança como alicerces para reconquistar a confiança popular.
Durante o discurso ao Folketing, a primeira-ministra dedicou larga parte da argumentação ao relacionamento entre Copenhague e Washington e às potenciais implicações para a segurança da Dinamarca e do Ártico. Num cenário em que a tectônica de poder no extremo norte do Atlântico está em mutação, a atitude do governo foi percebida como um movimento de defesa estratégica, capaz de redesenhar fronteiras invisíveis de influência e reafirmar soberania.
Estrategicamente, a convocação de eleições se lê como um lance calculado: aproveita-se a onda de apoio em temas identitários e de soberania para transformar um ressurgimento de opinião em vantagem eleitoral concreta. No tabuleiro político dinamarquês, a jogada de Frederiksen busca converter firmeza externa em estabilidade interna — tentando restaurar a simetria entre governo e sociedade antes que a legislatura chegasse ao seu prazo natural.
As próximas semanas serão decisivas. Observadores internacionais e analistas de segurança acompanharão não só o resultado eleitoral, mas também o modo como Copenhagen administrará as relações com Washington e as potências interessadas no Ártico, onde cada movimento ainda ecoa no tabuleiro mais amplo da geopolítica contemporânea.






















