Bruxelas — Em movimento estratégico que altera a técnica de jogo no tabuleiro da segurança continental, a Comissão Europeia apresentou a segunda onda de aprovação de empréstimos no âmbito do programa SAFE, o instrumento de apoio à defesa dotado de 150 bilhões de euros. A recomendação prevê o desembolso a oito Estados-membros: Itália, Estónia, Finlândia, Grécia, Letônia, Lituânia, Polônia e Eslováquia.
Trata-se do segundo passo decisivo em menos de duas semanas: a proposta da Comissão Europeia sucede a primeira tranche divulgada há dez dias e eleva para 16 o número total de governos que, até agora, veem-se contemplados pelos financiamentos demandados — de um conjunto de 19 pedidos encaminhados a Bruxelas.
A recomendação da Comissão não é, porém, a palavra final: cabe ao Conselho da UE ratificar os desembolsos. Ainda assim, a execução proposta demonstra que as dotações provisórias delineadas em setembro foram mantidas, confirmando montantes já identificados. Para o governo de Giorgia Meloni, isto significa a chegada de €14,9 bilhões destinados a programas de rearmamento, modernização logística e capacitação das forças armadas.
Andrius Kubilius, comissário europeu para a Defesa, qualificou a iniciativa como a tradução financeira das ambições estratégicas da União: “Com esta segunda série de investimentos SAFE, a Europa está finalmente a apoiar as suas ambições de segurança com o peso financeiro necessário”, declarou. Na sua leitura, o bloco passa de uma tradição de diplomacia e persuasão para uma postura que inclui elementos de dissuasão: a edificação de um hard power capaz de sustentar políticas de defesa creíbles.
Do ponto de vista analítico, a proposta representa um movimento de reposicionamento geopolítico. É um deslocamento visível na tectônica de poder europeu: fundos substanciais canalizados diretamente para Estados nacionais aumentam a autonomia operacional das forças, estreitam a relação com a indústria de defesa e enviam um sinal claro a atores externos. Como numa partida de xadrez de alto nível, a União consolida peças-chave no flanco oriental e mediterrâneo, reforçando linhas de abastecimento e capacidades de dissuasão.
No entanto, a transição de um paradigma de soft power para um arcabouço que incorpora coercição exige coordenação institucional rigorosa. O Conselho da UE terá de alinhar consensos políticos entre capitais; os Estados beneficiários deverão traduzir os fundos em programas industriais e logísticos eficientes; e a arquitetura de governança do SAFE terá de garantir transparência e responsabilização para evitar falhas estratégicas.
Para a Itália, a chegada de €14,9 bilhões representa uma oportunidade e um desafio: oportunidade para modernizar capacidades militares e estimular fornecedores locais; desafio para converter recursos em capacidade operacional tangível e sustentável ao longo do tempo. A decisão final em Bruxelas atuará como próximo movimento no tabuleiro: um teste de vontade política coletiva e de estratégia a longo prazo.
Marco Severini — Espresso Italia






















