Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um movimento que combina cálculo estratégico e diplomacia tecnológica, a União Europeia acelera sua ambição de tornar-se um verdadeiro Continente IA. Em Nova Déli, durante o cimeira sobre o impacto da IA de 2026, a vice‑presidente executiva para a soberania tecnológica, segurança e democracia, Henna Virkkunen, assinará em nome da Europa uma declaração dos líderes políticos que afirma que a promessa da inteligência artificial só é plena quando os seus benefícios são partilhados por toda a humanidade.
Esse documento não é simples retórica: é uma peça no redesenho das linhas de influência tecnológicas. O encontro ganha um alcance ampliado também pela recente assinatura, no fim de janeiro, de um acordo comercial entre UE e Índia, que transforma o cume em palco para materializar alianças práticas entre empresas, instituições e talentos.
O pilar central da visita foi a inauguração do Escritório Europeu de Acesso Legal, aberto em conjunto com o ministro indiano dos Negócios Estrangeiros, Subrahmanyam Jaishankar. A iniciativa visa criar um corredor direto entre empresas europeias e o amplo reservatório de profissionais indianos nas tecnologias da informação. Como um lance de torre no tabuleiro, procura conectar capacidades e reduzir a distância entre oferta e procura de competências.
Magnus Brunner, comissário para os Assuntos Internos, sublinhou a importância estratégica do projeto: “O Escritório marca um novo nível de cooperação entre UE e Índia. Terá um papel central em ligar talentos indianos a empregadores e instituições de ensino superior da UE, abrindo novos percursos para estudantes e investigadores”. A formulação revela a preocupação europeia em garantir caminhos legais e prévios de mobilidade que sustentem a inovação, sem sacrificar a governança.
Paralelamente, Virkkunen lançou a Frontier AI Grand Challenge, um concurso de alto perfil para estimular a criação de modelos de IA que sejam, nas palavras da vice‑presidente, europeus e “soberanos”. A iniciativa pretende desenvolver capacidades tecnológicas em larga escala, permitindo à União gerir autonomamente a evolução da tecnologia de fronteira — um movimento que reafirma a busca pela autonomia estratégica num domínio hoje moldado por potências privadas e estatais.
Na prática aplicada, a estratégia europeia desloca‑se rapidamente dos laboratórios para os corredores dos hospitais. A Comissão anunciou a criação de uma nova rede de centros de rastreamento avançados com o objetivo de integrar algoritmos seguros e eficazes na luta contra doenças oncológicas e cardiovasculares. O intento é usar capacidade de computação para reforçar a prevenção, diagnóstico precoce e triagem, transformando a IA num escudo para a saúde pública.
Ao mesmo tempo, Bruxelas lança um mapeamento rigoroso do ecossistema tecnológico para não ser surpreendida pelas evoluções rápidas do setor. Essa cartografia pretendida é tanto estratégica quanto defensiva: conhecer o terreno é condição para jogar com vantagem, evitando surpresas que possam abalar os alicerces frágeis da diplomacia tecnológica.
Como analista, observo que o movimento europeu segue uma lógica de xadrez de alta ordem — avançar peças, criar corredores, proteger o rei (soberania) — sem perder de vista a arquitetura maior das relações transcontinentais. A cooperação com a Índia não é apenas um incremento de talentos; é um reposicionamento geo‑estratégico que pode definir os contornos da governança da IA nas próximas décadas.






















