Bruxelas — A leitura do atual momento sírio, do ponto de vista das instituições europeias, é de profunda apreensão. A Presidência cipriota do Conselho da UE deixou registrado, em resposta a uma pergunta parlamentar dirigida ao órgão, que a possibilidade de uma mudança de regime não garante, por si só, estabilidade ou reconciliação. O principal receio apontado é que muitos dos fidelíssimos a Assad permaneçam em lugares decisivos do aparelho do Estado, preservando assim estruturas de poder que podem boicotar uma transição pacífica.
Nos termos da nota oficial, a situação no terreno continua volátil: existem “alicerces frágeis da diplomacia” e uma cartografia de poder que favorece atores enraizados em setores-chave da administração, da segurança e dos serviços públicos. Esse arranjo, argumenta a Presidência cipriota, aumenta o risco de novos confrontos — inclusive guerras civis — caso ocorram rupturas abruptas ou vacância de comando. Em linguagem de estratégia de Estado, trata-se de um tabuleiro em que peças leais ao atual regime mantêm posições de influência, dificultando movimentos coordenados de reconstrução institucional.
O diagnóstico do Conselho da UE é pragmático e reservado: a queda de Bashar al-Assad, por si só, não representa garantia de ordem; ao contrário, pode abrir um período de fragmentação se não houver um roteiro internacional claro e mecanismos de transição que neutralizem a capacidade de sabotagem dos núcleos fidelizados. As autoridades europeias destacam a necessidade de mapeamento dos instrumentos estatais em mãos de agentes leais ao regime e de planos para assegurar funções essenciais — desde a cadeia de comando militar até serviços sociais básicos — durante qualquer processo de mudança.
Do ponto de vista geopolítico, a leitura feita em Bruxelas sugere um redesenho de fronteiras invisíveis: zonas de influência que podem cristalizar-se em vez de dissolver-se, caso atores regionais e internacionais não coordenem uma estratégia que privilegie estabilidade e inclusão. A Presidência cipriota, ao formalizar esses receios, busca impulsionar uma resposta mais articulada por parte da UE, capaz de alinhar instrumentos diplomáticos, humanitários e de segurança.
Como analista, interpreto essa mensagem como um aviso estratégico: o tabuleiro sírio exige movimentos cautelosos e bem calculados. A transição deve ser planejada com a sensibilidade de um enxadrista que evita expor o rei sem cobertura; sem isso, os espaços de autoridade poderão ser rapidamente capturados por atores dispostos a manter o status quo ou a inflamar novos conflitos. A perspectiva europeia, portanto, é a de empurrar por um processo que minimize rupturas, preserve instituições essenciais e neutralize os pontos de apoio dos leais a Assad, antes que se tornem instrumentos de desestabilização.
Em suma, o aviso do Conselho da UE é claro: a transição na Síria está longe de ser uma passagem tranquila — é um desafio estratégico que exige coordenação internacional, visão de Estado e prontidão para atuar nos nexos de poder que hoje sustentam o regime.






















