Por Marco Severini — Em um movimento que lembra uma jogada pensada no tabuleiro da diplomacia, dezenove Estados-membros, acompanhados pela presidente da Comissão Europeia, concentraram-se em Alden Biesen (Bélgica) numa reunião preparatória que antecedeu o encontro informal do Conselho Europeu sobre competitividade, convocado pelo presidente do Conselho, Antonio Costa, no dia 12 de fevereiro de 2026. O encontro, inédito na forma e no ritmo, não foi um gesto de subversão institucional, mas uma tentativa pragmática de alinhar posições diante de desafios urgentes.
O núcleo organizador — Itália, Alemanha e Bélgica — convocou um grupo de trabalho informal do qual participaram também Áustria, Bulgária, Chipre, Croácia, Dinamarca, Finlândia, França, Grécia, Luxemburgo, Países Baixos, Polônia, República Tcheca, Romênia, Eslováquia, Suécia e Hungria. A presença de Ursula von der Leyen adicionou à sessão uma dimensão executiva crucial: preparar, com vistas imediatas, decisões que afetarão a tessitura econômica da União.
Na periferia da sala, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, definiu parâmetros objetivos: o grupo deve trabalhar de modo contínuo, não apenas “ver-se” antes dos Conselhos, mas produzir resultados concretos entre uma cimeira e outra. Meloni pediu que o trabalho traga, para o próximo Conselho, três propostas práticas — a primeira relacionada aos preços da energia, tema que se impõe como prioridade.
A convergência sobre a simplificação regulatória e a remoção de barreiras transfronteiriças é visível na rascunho da agenda europeia; entretanto, a pergunta estratégica permanece: de onde virão os capitais necessários para impulsionar a recuperação e a modernização industrial? A mera redução de entraves administrativos não resolve o cerne do problema. Com resistências de alguns Estados — notadamente a Alemanha — à ideia de novos eurobonds ou de dívida comum, o debate passa por alternativas que preservem a solidez fiscal e, ao mesmo tempo, liberem recursos.
Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu, resumiu o ponto nevrálgico: ‘a competitividade precisa de capital‘. Embora não tenha participado do pre-vertice dos 19, Metsola reforçou a urgência do tema ao chegar a Alden Biesen. As ausências — Estônia, Irlanda, Letônia, Lituânia, Malta, Portugal, Eslovênia e Espanha — não impediram que a maioria dos presentes discutisse medidas práticas, entre elas a criação de grandes bancos europeus capazes de financiar as grandes empresas estratégicas, uma ideia repetida nos bastidores.
O encontro antecedeu o vertice de Costa sem tentar suplantá-lo; operou como uma âncora técnico-política para o Conselho. Em termos de geopolítica e arquitetura econômica, essa sessão mostra um redesenho de fronteiras invisíveis: alianças funcionais que se formam em torno da necessidade de capitalizar a indústria e garantir soberania tecnológica e energética. É um movimento defensivo e ofensivo ao mesmo tempo — proteger mercados internos e posicionar a União diante de uma nova competição global.
Resta saber se esse ‘prelúdio’ será convertido em políticas concretas, se os Estados conseguirão deixar de lado rivalidades e restrições nacionais para construir os instrumentos financeiros necessários. O futuro da competitividade europeia depende, em última instância, de decisões que articulem instrumentos financeiros, vontade política e uma arquitetura bancária capaz de sustentar projetos de escala continental — um verdadeiro movimento de xadrez de alta magnitude.






















