Bruxelas — Em discurso rigoroso na sessão plenária do Parlamento Europeu em Estrasburgo, a comissária europeia para a Cooperação Internacional, Ajuda Humanitária e Resposta a Crises, Hadja Lahbib, lançou um apelo claro e estratégico: é indispensável intensificar radicalmente a preparação para os impactos climáticos. A chamada ocorre após o ciclone Harry, que entre 19 e 21 de janeiro provocou danos significativos na Grécia, Itália, Malta e Portugal, e no contexto mais amplo dos eventos extremos que também atingiram Espanha.
Ao expor a posição da Comissão Europeia, Lahbib afirmou que “estes trágicos episódios não serão os últimos desta envergadura” e reforçou a necessidade de que os instrumentos financeiros comunitários sejam desenhados para resistir a danos extremos. A avaliação climática de 2024, recordou a comissária, demonstrou que a União ainda não dispõe da prontidão necessária — uma constatação que impõe um redesenho profundo das políticas de prevenção e resposta.
Como resposta imediata, a Comissão prepara um quadro integrado para a resiliência climática, acompanhado por um programa de apoio destinado a “construir a resiliência desde a fase de concepção” dos investimentos e obras públicas. Trata-se de passar de uma lógica reativa para uma arquitetura proativa de mitigação de riscos, em que a avaliação do risco climático e a adaptação são pré-condições para qualquer financiamento.
Na intervenção, a comissária também recordou ferramentas já existentes, como a estratégia de prontidão e resiliência hídrica adotada no ano anterior — cujo objetivo é preservar e restaurar o ciclo da água, da nascente ao mar, para reduzir a vulnerabilidade face a cheias, secas e carência hídrica — e o Fundo de Solidariedade da União Europeia, concebido para apoiar operações essenciais pós-calamidade. Este fundo, explicou Lahbib, complementa as despesas públicas dos Estados afetados, que dispõem de 12 semanas após a catástrofe para solicitar o acesso.
No entanto, a mensagem político-técnica foi inequívoca: os instrumentos atuais são insuficientes diante da frequência e intensidade crescentes dos fenómenos. A prevenção e a preparação devem ser escaladas, com investimentos que pagam em termos económicos e humanos — “investir na preparação paga sempre, tanto em vidas poupadas como em redução de custos”.
Da perspetiva geoestratégica, o debate em Estrasburgo revela vetores de tensão e oportunidade no tabuleiro europeu. A intensificação de eventos climáticos testa os alicerces da solidariedade intracomunitária e exige um realinhamento das prioridades orçamentais, ao mesmo tempo que abre espaço para instrumentos financeiros comuns que reforcem coesão e interoperabilidade entre serviços de proteção civil. É um movimento decisivo no tabuleiro: quem gerir melhor a resiliência ganhará vantagem em estabilidade social e económica.
As próximas etapas anunciadas pela Comissão incluem a finalização do quadro integrado e a definição de mecanismos de financiamento que tornem os projetos resilientes desde a concepção. Para os Estados-membros, a lição é clara — modernizar infraestruturas, articular planos transfronteiriços e incorporar avaliações climáticas sistemáticas não são opções táticas, mas requisitos estratégicos.
Como analista, prefiro ver estas medidas como parte de uma tectónica de poder mais ampla: a União está a construir ferramentas que não apenas respondem a desastres, mas moldam o futuro da governança territorial e da coesão. A chave será transformar a retórica em instrumentos operacionais robustos, capazes de resistir a choques cada vez mais severos.
Marco Severini — Espresso Italia






















