Bruxelas concedeu ao governo italiano um prazo de doze semanas — cerca de três meses — para formalizar o pedido de acesso ao Fundo Europeu de Solidariedade após os estragos do ciclone Harry em Sicília, Sardenha e Calábria. A confirmação partiu da porta-voz para Gestão de Crises da Comissão Europeia, Eva Hrncirova, que reiterou que a União Europeia está “pronta a assistir e a ajudar” os Estados-membros atingidos.
Na prática, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro institucional: o pedido deve ser acompanhado de avaliações técnicas e contabilizações precisas dos danos, tarefa que cabe à Proteção Civil italiana. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, já anunciou a intenção do Executivo de acionar Bruxelas; Tajani sublinhou que a procedura é longa porque depende da conclusão e da mensuração exata do evento.
O vice-presidente da Comissão, Raffaele Fitto, após diálogo com o ministro da Proteção Civil, Nello Musumeci, e com os presidentes das três regiões afetadas, recordou que os instrumentos europeus são vários, com destaque para o Fundo de Solidariedade. A governança da UE, neste caso, exige que os Estados-membros realizem um inventário pormenorizado dos prejuízos antes de submeterem o pedido oficial, dentro do prazo legal de 12 semanas.
As primeiras estimativas vindas da Sicília apontam para pelo menos 1 bilhão de euros em prejuízos, número ao qual juntar-se-ão as contagens de Sardenha e Calábria. Até agora, o governo nacional já destinou 100 milhões de euros a repartir entre as três regiões como resposta imediata. Para colocar em perspectiva a escala, as cheias que atingiram Emilia-Romagna e Toscana na primavera de 2023 geraram danos estimados em cerca de 10 bilhões de euros, e a Comissão mobilizou quase 450 milhões de euros, incluindo 94 milhões como adiantamento.
Desde 2002 até 2022, o Fundo Europeu de Solidariedade ativou mais de 8,6 bilhões de euros; pouco mais de um terço desse montante — aproximadamente 3 bilhões — foi alocado à Itália, em múltiplas ocasiões, desde as inundações até os grandes sismos do Centro do país. A natureza desse instrumento é clara: financiar intervenções de emergência para restabelecer rapidamente infraestruturas essenciais (energia, telecomunicações, transportes, saúde e educação), fornecer alojamento temporário, coordenar operações de limpeza e proteger o património cultural. Importa contudo lembrar que danos privados, como perdas aHabitação particular, não são elegíveis.
No terreno, a imagem é a de habitações em balanço e vias comprometidas — uma cartografia de fragilidades que expõe alicerces frágeis da resiliência regional. A primeira visita de governantes, incluindo a presença da presidente do Conselho, foi um gesto político e técnico: sinalizar prioridades, acionar a máquina administrativa e preparar o dossiê europeu dentro do calendário legal.
Do ponto de vista estratégico, a conclusão das estimativas será o lance crítico para desbloquear apoio financeiro externo. Bruxelas dispõe do mecanismo, mas o êxito dependerá da precisão das avaliações italianas e da capacidade de transformar danos locais em justificativa técnica incontestável para a mobilização comunitária. Num contexto de tectônica de poder e orçamentos apertados, cada peça do dossiê conta: sem um pedido no tempo e forma, a ajuda europeia pode ficar condicionada a demoras burocráticas.
Em suma, a Itália tem duas frentes a gerir: conter os efeitos imediatos do ciclone Harry e preparar, com método e urgência, a documentação que sustente o pedido ao Fundo de Solidariedade da UE dentro das 12 semanas concedidas. É um jogo de xadrez institucional em que a precisão das próximas jogadas determinará a velocidade e a amplitude da assistência comunitária.






















