Bruxelas – O recente endurecimento da política norte-americana contra Havana, cristalizado no decreto executivo de 29 de janeiro de 2026 que prevê mecanismos para taxar países que vendam petróleo ao regime cubano, empurra Cuba para um ajuste estratégico: aproximar-se de Pequim e acelerar a transição para fontes alternativas de energia. O quadro é sintomático de um redimensionamento da tensão geopolítica em que a ilha caribenha tenta escapar das consequências mais letais do que analistas internacionais já denominam um “embargo de facto“.
Os efeitos domésticos dessa pressão são palpáveis. O custo dos alimentos e do transporte disparou, o abastecimento de combustível foi racionado por meio de um aplicativo — enquanto um mercado paralelo vê o preço do litro subir para cerca de 8 dólares, ante 1,10 dólares do preço oficial — e episódios de apagões chegaram a durar até 24 horas, atingindo com particular severidade as regiões orientais e as áreas socialmente mais vulneráveis.
O impacto atingiu ainda o setor do turismo, historicamente um dos pilares da economia cubana: companhias aéreas não reabastecem na ilha e ônibus turísticos ficam impedidos de operar com regularidade. GAESA, o conglomerado militar que controla grande parte do turismo em Cuba, foi forçado a fechar hotéis e reduzir operações. Tudo isso se soma às feridas abertas pelo furacão Melissa, em outubro do ano anterior: cerca de 3,5 milhões de afetados, 90 mil habitações danificadas ou destruídas e 100 mil hectares de terras agrícolas perdidas.
O movimento estratégico de Pequim
Em resposta, e em parte antecipando a nova linha de Washington, China emergiu como parceiro decisivo. A cooperação energética entre Havana e Pequim já vinha sendo construída antes do último ato de hostilidade norte-americano. Em dezembro de 2024, os dois governos assinaram acordos para a construção inicial de sete parques solares com capacidade combinada de 35 megawatts, e um projeto subsequente prevê a instalação de mais 92 parques até 2028, totalizando 2 gigawatts de capacidade.
Os números corroboram esse envolvimento: o think-tank Ember registrou um aumento de 34 vezes nas importações cubanas de painéis solares chineses entre abril de 2024 e abril de 2025 — o crescimento mais rápido do planeta nesse indicador — e, em outubro de 2025, Cuba já havia concluído 35 parques solares com capacidade máxima de 750 megawatts.
Do ponto de vista da diplomacia do poder, trata-se de um movimento que funciona como uma jogada de alcance múltiplo no tabuleiro internacional: fornecimento energético imediato para mitigar a crise interna, reforço simbólico da influência chinesa na região e criação de alicerces tecnológicos que podem sustentar relações comerciais e políticas de longo prazo. Para Havana, a aposta é evidente: diversificar dependências, reduzir a vulnerabilidade ao corte de combustíveis fósseis e tentar estabilizar a economia através de fontes renováveis.
Impasse europeu e repercussões
Enquanto isso, a União Europeia permanece observadora — uma posição que, aos olhos de analistas, sugere uma hesitação calculada. A tectônica de poder entre Washington e Pequim redesenha fronteiras de influência, muitas vezes de forma invisível, e a passividade europeia revela tanto limitações de estratégia quanto risco de marginalização diplomática em um teatro estratégico que é tradicionalmente do “quintal” americano.
O desfecho dessa partida ainda está em aberto. O avanço da energia solar em Cuba não elimina necessidades imediatas de combustíveis e bens essenciais, mas cria alternativas que enfraquecem a armação do embargo indireto. Para os estrategistas, é um movimento de longo prazo contra a vulnerabilidade: um redesenho das linhas de abastecimento e, potencialmente, das lealdades regionais.
Como em uma partida de xadrez, cada movimento acarreta respostas e contrarreformas. A estabilização cubana dependerá da capacidade de consolidar esses investimentos renováveis em infraestrutura resiliente, ao mesmo tempo em que negocia os contornos de uma diplomacia prática com atores tão distintos quanto Washington, Pequim e os Estados-membros da União Europeia. O tabuleiro não é apenas energético; é, sobretudo, político.






















