Bruxelas coloca em xeque a presença de agentes do ICE em solo europeu durante os Jogos de Inverno de Milano-Cortina. A iniciativa partiu do grupo parlamentar The Left no Parlamento Europeu, que enviou carta aos presidentes das instituições da União, solicitando o veto de entrada desses agentes no território da União Europeia. O pedido acentua tensões já existentes entre preocupações de direitos humanos e as necessidades operacionais de segurança em eventos internacionais.
Na carta, assinada em nome do grupo pelos copresidentes Manon Aubry e Martin Schirdevan, os eurodeputados citam episódios ocorridos em Minneapolis — qualificados como assassinato de manifestantes por agentes mascarados do ICE — e alegam um padrão crescente de detenções arbitrárias de migrantes e requerentes de asilo nos Estados Unidos. “Following the murder of protesters and widespread arbitrary detentions in the USA, ICE cannot be allowed in Europe. We are calling for an immediate travel ban on all ICE agents,” publicou também o grupo em sua conta oficial no Twitter.
A réplica institucional veio rápida: a Comissão Europeia, por meio do porta-voz Markus Lammert, recordou que a segurança nacional é competência exclusiva de cada Estado-membro, segundo os tratados que regem o funcionamento da União. Em termos práticos, disse Lammert, qualquer decisão sobre a presença de forças de segurança estrangeiras em território comunitário deve ser dirigida ao Governo de Roma.
No plano político, o debate não está unânime. O eurodeputado do Movimento 5 Stelle, Gaetano Pedullà, defende que a União dispõe de instrumentos jurídicos para restringir a entrada de indivíduos envolvidos em graves violações de direitos humanos, mencionando os dispositivos dos artigos 29 do Tratado da União Europeia e 215 do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia como fundamento para sanções a pessoas e entidades.
Por outro lado, Paolo Borchia, chefe da delegação da Lega no Parlamento Europeu, fez um apelo à cautela: segundo ele, é importante evitar “mistificações e inúteis alarmismos”. Borchia esclarece que a hipótese em discussão não se refere a operações de polícia em solo italiano, mas a atividades de apoio à segurança de delegações dos Estados Unidos — um formato habitual em grandes eventos internacionais.
Para a Itália, como país anfitrião de Milano-Cortina, a controvérsia expõe uma fragilidade estratégica: o alicerce diplomático que sustenta a organização de eventos globais depende simultaneamente de garantias de segurança e de consenso político. A questão desloca-se, assim, do terreno operativo para o tabuleiro de influências — onde movimentos precisos e antecipados são exigidos para evitar fissuras maiores nas relações transatlânticas.
Como analista com olhar sobre a tectônica de poder, registro que a demanda do grupo The Left funciona como um lance preventivo numa partida em que os vetores de imagem pública têm peso decisivo. A resposta da Comissão, por sua vez, devolve a jogada à capital italiana, insistindo na soberania dos Estados-membros e transformando a disputa numa manobra diplomática entre Roma, Bruxelas e Washington.
O desfecho desse confronto institucional terá efeitos práticos sobre a logística dos Jogos, sobre a percepção internacional da segurança pública e — não menos importante — sobre os instrumentos legais que a União está disposta a acionar em matéria de direitos humanos quando as forças de segurança de um aliado estão em causa. Em termos de cartografia política, a situação redesenha fronteiras invisíveis entre soberania e responsabilidade multilateral.
Em suma, a polêmica sobre a presença de agentes do ICE em Milano-Cortina é menos um incidente isolado e mais um movimento decisivo no grande tabuleiro europeu: as próximas semanas dirão se prevalecerá um entendimento pragmático de cooperação em segurança ou se emergirão novos limites legais e simbólicos no relacionamento transatlântico.






















