Por Marco Severini — Em mais um movimento de relevo no tabuleiro institucional europeu, a Comissão Europeia colocou em avaliação opções para tornar as regras de concorrência mais europeias e menos dependentes das decisões das autoridades nacionais. A iniciativa, destinada a preservar a coerência do mercado único, desencadeou críticas e inquietações no Parlamento Europeu sobre um eventual deslocamento de competências para Bruxelas.
O eurodeputado polonês Piotr Müller (Lei e Justiça/ECR) foi incisivo ao denunciar que o executivo comunitário estaria “avaliando a possibilidade de limitar o papel dos organismos antitrust nacionais na aplicação das normas sobre a concorrência, centralizando as decisões em Bruxelas”. Para membros de alguns grupos políticos, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro que pode reduzir o espaço de manobra dos reguladores locais.
Em resposta, a vice-presidente-executiva responsável pela política de concorrência — Teresa Ribera, que lidera a pasta sob a bandeira das doze estrelas — procurou modular as leituras mais alarmistas. “Uma vez que o direito da concorrência da UE desempenha um papel central na promoção de mercados competitivos, a Comissão não prevê eliminar as competências nacionais relativas à sua aplicação”, afirmou Ribera, ao mesmo tempo que admitiu que o papel dos Estados-membros poderá ser diferente, e possivelmente mais limitado, do que atualmente.
A motivação técnica é clara e de natureza estrutural: existe o risco de fragmentação na aplicação das regras face a um recurso crescente a normas nacionais mais restritivas sobre condutas unilaterais. Para mitigar esse risco, Bruxelas estuda dois caminhos complementares — uma maior harmonização das regras de conduta a nível da UE ou o reforço dos mecanismos de coordenação e troca de informação dentro da rede europeia da concorrência. Em ambos os cenários, a palavra de ordem é coerência entre instrumentos nacionais e europeus.
Ribera sublinhou que o objetivo não é, necessariamente, uma centralização rígida, mas sim uma “cabina de regia europeia” capaz de garantir coerência, complementaridade e eficácia normativa. A metáfora é apropriada: numa arquitetura diplomática sensível, o equilíbrio entre centros de decisão é um alicerce frágil, e qualquer redesenho de competências altera a tectônica de poder dentro do mercado único.
Do ponto de vista processual, a Comissão e os seus serviços conduzem atualmente uma avaliação de impacto sobre as opções possíveis, com conclusão prevista para o terceiro trimestre de 2026. Será nessa data que as linhas estratégicas da política de concorrência — se para mais integração normativa ou para um melhor mecanismo de coordenação — deverão ser clarificadas.
Em termos práticos, a decisão colocará em jogo não apenas a autoridade das instituições comunitárias, mas também a capacidade dos Estados-membros de moldar intervenções específicas no seu mercado interno. Para observadores da Realpolitik europeia, a proposta representa um teste à capacidade da União de gerir complexidade normativa sem sucumbir a centralismos que possam desalinhar-se da diversidade econômica dos Estados-membros.
Enquanto a avaliação prossegue, o debate político continuará a desenhar os contornos dessa possível mudança. A atenção dos atores económicos e dos reguladores nacionais será determinante: cada movimento será calculado como numa partida de xadrez, onde antecipação e coordenação definem a vantagem estratégica.





















