Bruxelas – Hoje (19 de fevereiro) tem lugar a primeira reunião do controverso Board of Peace, iniciativa lançada por Donald Trump no World Economic Forum em Davos com o propósito declarado de supervisionar a administração e a reconstrução da Faixa de Gaza. O projeto, concebido pelo ex-presidente norte-americano como uma alternativa paralela às Nações Unidas, reúne no seu cerne países e líderes alinhados ao seu eixo político — uma jogada que redesenha, no tabuleiro da diplomacia, linhas de influência e reconhecimento.
A convocatória de Washington atraiu uma conjunção peculiar: Estados árabes, regimes autoritários e lideranças populistas que procuram simultaneamente agradar a quem detém ainda considerável poder internacional e obter visibilidade global. Entre os pontos que mais inflamam debates está a decisão, anunciada hoje, de permitir à Comissão Europeia atuar como observadora. Para muitos governos europeus, essa participação corre o risco de conferir uma aura de legitimidade a um conselho cuja carta fundadora e estrutura operacional suscitam sérias dúvidas quanto à compatibilidade com os compromissos no âmbito das Nações Unidas.
Os membros efetivos do Board serão pouco mais de vinte, com destaque para aliados próximos do círculo ideológico do MAGA. Participam diretamente — segundo a lista oficial de convites —: Estados Unidos, Israel, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Qatar, Bahrein, Turquia, Egito, Marrocos, Paquistão, Hungria, Kosovo, Albânia, Bulgária, Bielorrússia, Argentina, Paraguai, Cazaquistão, Mongólia, Uzbequistão, Indonésia, Vietnã, Camboja e El Salvador.
Além da presença confirmada da Hungria e da Bulgária, pelo menos oito Estados-membros da União Europeia aceitaram participar como observadores: Itália, Romênia, República Tcheca, Eslováquia, Grécia, Chipre, Polônia e Áustria. A Comissão Europeia afirma que o total de observadores europeus chega a 14, e, no conjunto, representantes de cerca de 40 países são esperados. A participação é estritamente por convite; evidencia-se um critério político e pessoal na seleção: por exemplo, a Dinamarca ficou de fora — em meio a tensões recentes com Washington sobre a Groenlândia — e o convite ao Canadá foi retirado. Notoriamente ausente da mesa de reconstrução está a Autoridade Nacional Palestina, excluída do processo consultivo.
Entre as ausências dos principais líderes do velho continente destacam-se o presidente francês Emmanuel Macron, o chanceler alemão Friedrich Merz e o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, todos declinando o convite. A razão é dupla: juridicamente, a carta constitutiva do Board parece conflitar com compromissos assumidos sob o guarda-chuva das Nações Unidas; politicamente, a estrutura alimenta desconfiança por concentrar poder de decisão nas mãos de quem controla os convites e a governança financeira.
De fato, a mecânica de acesso ao círculo permanente do conselho é explícita e reveladora do interesse e do modus operandi do anfitrião: para assegurar um assento permanente é necessário um compromisso financeiro superior a mil milhões de dólares — um critério que transforma segurança e reconstrução em mercadoria de prestígio e influência. O executivo do Board, nomeado pela presidência de Donald Trump, foi formado com figuras próximas ao seu núcleo político, combinando nomes do establishment republicano e aliados internacionais.
O efeito prático desta operação diplomática é um redesenho de fronteiras invisíveis: ao criar uma arquitetura paralela de governança sobre Gaza, o Board de Trump tenta realocar autoridade e reconhecimento fora dos canais multilaterais tradicionais. Para a diplomacia europeia, a presença observadora da Comissão Europeia representa um dilema estratégico — aceitar o convite é correr o risco de normalizar um mecanismo cujo estatuto jurídico é contestável; recusar é perder voz num fórum que pode moldar decisões concretas sobre assistência, contratos e reconstrução.
Do meu ponto de vista, como analista de estratégia internacional, estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro: não é apenas uma questão de filantropia ou de segurança; trata-se de uma peça geopolítica que procura redesenhar e capturar alicerces fundamentais da diplomacia multilateral. As capitais europeias, pressionadas entre a prudência normativa e a necessidade de não serem excluídas dos processos concretos de reconstrução, enfrentarão nas próximas semanas uma escolha que terá implicações duradouras para a autoridade das instituições multilaterais e para a tectônica de poder no Mediterrâneo e no Oriente Médio.
Em resumo, o primeiro encontro do Board of Peace é mais do que um evento: é um teste de resiliência das normas internacionais e uma jogada de alto risco na cartografia de influência global — cujo desfecho poderá reconfigurar percursos diplomáticos e logísticos no terreno devastado de Gaza.






















