BEI quadruplica gasto em defesa em 2025 e reforça aposta em infraestrutura e tecnologia
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, silencioso porém decisivo, o tabuleiro estratégico europeu, a Banco Europeia de Investimentos (BEI) registrou em 2025 um aumento sem precedentes nas suas operações voltadas à defesa. O relatório anual do grupo revela uma despesa de cerca de 4 bilhões de euros no setor, quatro vezes o que fora aplicado em 2024, fazendo com que a defesa passe a representar aproximadamente 5% do total financiado.
Este avanço ocorre num cenário em que, a meio de 2025, a BEI já havia decidido expandir seu raio de ação para o setor com um pacote de financiamento até 100 bilhões de euros. Como observa a presidente Nadia Calviño, “fizemos melhor do que o previsto, atingindo em 2025 objetivos que imaginávamos para 2026”. A mensagem é clara: a instituição não só reposiciona seus alicerces, como concede legitimidade financeira a uma tectônica de poder que busca fortalecer a autonomia estratégica europeia.
Os investimentos concentram-se em áreas concretas e reforçam cadeias críticas: infraestruturas críticas, mobilidade militar, ampliações portuárias, capacidade industrial — com especial atenção à produção de drones — e pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de segurança, como sensores a fibra ótica para proteção de redes. A BEI também tem promovido instrumentos de garantia e parcerias com bancos como Banque Populaire, Santander e Deutsche Bank para assegurar o acesso ao crédito a pequenas e médias empresas do setor.
É pertinente destacar que este reposicionamento estratégico não implicou um abandono da vocação ambiental da instituição. Quase 60% dos financiamentos do grupo em 2025 foram destinados a projetos de sustentabilidade: grandes redes energéticas, interconexões, armazenamento, energia renovável e tecnologias limpas para a descarbonização da indústria pesada. Um montante recorde de 11,6 bilhões de euros foi alocado a redes e sistemas de armazenamento, com impacto estimado na construção ou modernização de cerca de 56 mil quilômetros de linhas elétricas.
Entre os projetos emblemáticos citados pela presidência da BEI, figuram a interconexão no Golfo da Biscaia entre a Península Ibérica e a França, um cabo submarino ligando duas regiões do centro da Itália e diversos investimentos em redes municipais na Alemanha. Trata-se de um desenho cartográfico de infraestrutura que, ao mesmo tempo, fortalece a segurança energética e cria corredores logísticos de dual use — utilidade civil e potencial militar.
Do ponto de vista geopolítico, a combinação de um robusto compromisso com a sustentabilidade e uma escalada nas despesas de defesa coloca a BEI no centro de um equilíbrio sensível: a instituição atua hoje como um articulador financeiro que permite à União Europeia reforçar capacidades estratégicas sem depender exclusivamente de orçamentos nacionais. Em termos de xadrez diplomático, é um movimento que protege várias peças ao mesmo tempo — infraestrutura, indústria e pesquisa — e prepara o terreno para futuras jogadas coletivas na arena da segurança europeia.
Em suma, a BEI transforma recursos em arquitetura de poder: não se trata de militarizar financiamentos, mas de consolidar as bases materiais que tornam viável uma Europa mais resiliente e autônoma em matéria de defesa e energia.






















