Bruxelas – No último quarto de 2025 a BCE constatou um movimento significativo nos custos de crédito: os bancos da zona do euro aumentaram de forma líquida as taxas de juros sobre os empréstimos destinados às empresas, independentemente de seu porte. Esse salto, de 2% líquido no trimestre anterior para 12% no final do ano, revela um redesenho das condições financeiras que afeta tanto as PMI quanto as grandes corporações.
Apesar de a autoridade monetária ter mantido inalterados os seus próprios parâmetros de política — isto é, as taxas oficiais —, o preço do crédito para as empresas tornou‑se mais oneroso. Na prática, observamos um afastamento entre os alicerces da política monetária e as condições de mercado: os bancos, no que parece um movimento defensivo no tabuleiro financeiro, repercutiram riscos percebidos elevando as margens aplicadas aos mutuários.
A pesquisa da BCE sobre o acesso ao financiamento, relativa ao quarto trimestre de 2025, mostra ainda que um percentual líquido de 28% das empresas reportou aumentos nos custos de financiamento (juros, comissões e encargos operacionais), contra 23% no período precedente. Os requisitos de garantia também permaneceram elevados, com 14% das empresas assinalando aperto em garantias exigidas (ante 16% no terceiro trimestre).
Trata‑se de um padrão distinto daquele observado na primeira metade do ano anterior, quando, mesmo com queda no custo global do dinheiro, as instituições optaram por compensar a pressão sobre as margens elevando custos e comissões. Agora, contudo, a dinâmica é mais ampla: o custo direto do crédito subiu e os encargos acrescentaram pressão adicional.
As percepções das empresas sobre o ambiente macroeconômico seguem a ser um obstáculo à oferta de financiamento: 20% indicaram que as perspectivas económicas gerais limitam a disponibilidade de recursos externos (ante 19% no ciclo anterior). Paralelamente, a disposição dos bancos em emprestar mostrou uma leve melhoria — 4% positivo versus 2% —, ainda assim insuficiente para compensar o efeito combinando taxas mais altas e custos adicionais nas agências.
O resultado prático desse ajuste é um aperto nas margens empresariais: 10% líquido das empresas sinalizou lucros mais baixos, embora esse indicador tenha melhorado em relação aos 13% do trimestre anterior. Geograficamente, os maiores aumentos líquidos nas taxas de juro sobre empréstimos foram observados na Bulgária e na Grécia (ambas 19%), seguidas pela Lituânia (18%).
Em termos estratégicos, o episódio ilustra a delicada tectônica de poder entre política monetária e intermediação bancária: mesmo com a estabilidade formal das taxas do BCE, os bancos redesenham as condições de crédito em função de percepções de risco e de necessidade de preservar capitais. É um movimento de xadrez em que as peças se reposicionam nas bordas do tabuleiro, com consequências palpáveis sobre a capacidade de investimento e a resiliência das empresas na zona do euro.
Marco Severini
Analista sênior de geopolítica econômica — Espresso Italia






















