Por Marco Severini
Nos últimos meses, Alemanha e França intensificaram negociações discretas com os principais Estados-membros da União Europeia para moldar um modelo de integração conhecido como Europa a duas velocidades. Trata-se de um movimento calculado para permitir que um núcleo reduzido de países avance mais rapidamente em políticas estratégicas, sem ficar refém do consenso dos 27 Estados.
Em termos práticos, essa iniciativa nasce da constatação de que a heterogeneidade política e econômica dos membros da UE tem produzido um impasse nas decisões sobre temas cruciais — defesa, competitividade e autonomia industrial — num contexto internacional caracterizado por crescente instabilidade. É um ajuste de estratégia que lembra um movimento decisivo no tabuleiro, no qual peças centrais procuram ganhar espaço antes que a geografia da influência se redesenhe.
Uma carta assinada pelo ministro alemão Lars Klingbeil convida os ministros das Finanças da Itália, Espanha, Polônia e dos Países Baixos a uma videoconferência preparatória, passo preliminar para um encontro presencial previsto para o mês seguinte. Na missiva, Klingbeil advertiu que “continuar como antes não é uma opção” se a Europa pretende reforçar sua resiliência diante dos desafios geopolíticos contemporâneos.
Segundo Berlim e Paris, o chamado grupo dos seis — que agrega, no conjunto, uma fatia significativa do PIB europeu — poderia funcionar como motor político num cenário de estagnação decisória. A ideia não é fragmentar a União, mas criar alicerces funcionais que permitam avanços práticos e mensuráveis, uma espécie de arquitetura preferencial de cooperação.
Na carta, são apontadas quatro prioridades para uma cooperação reforçada:
- União dos poupanças e dos investimentos, visando maior eficiência financeira e capacidade de financiamento conjunto;
- Reforço do papel internacional do euro, para aumentar a autonomia monetária e geoeconômica da Europa;
- Maior coordenação dos gastos militares, com vistas a elevar a capacidade de dissuasão e interoperabilidade;
- Segurança das cadeias de fornecimento de matérias-primas críticas, essencial para a autonomia industrial.
O sentido de urgência foi ampliado pelas sinalizações vindas dos Estados Unidos: as políticas de Donald Trump agravaram na Europa a percepção de um aliado menos previsível, tanto no plano comercial quanto na defesa. Esse contexto elevou o debate interno sobre autonomia estratégica — não como ruptura automática, mas como correção de rota para reduzir vulnerabilidades.
Como analista, vejo esse movimento com a calma de quem observa um tabuleiro em rearranjo. A proposta tem dupla face: oferece, por um lado, maior eficácia decisória e proteção contra choques externos; por outro, traz o risco de acelerar um redesenho de fronteiras invisíveis na integração europeia, com implicações políticas e institucionais de longo prazo. A chave estará em transformar essa iniciativa em uma arquitetura que fortaleça a coesão, e não que a corroa — um desafio de engenharia diplomática e estratégica que exigirá precisão e temperança.
Enquanto isso, os próximos encontros entre os governos determinarão se esse núcleo funcionará como motor de estabilidade ou se desenhará, aos poucos, uma nova tectônica de poder dentro da União.






















