Bruxelas — Em um relatório recente, a Agência Europeia do Ambiente (AEA) conclui que, embora as indústrias de alta intensidade energética tenham alcançado reduções substanciais de poluentes nas últimas duas décadas, o progresso estagnou e os custos sanitários decorrentes da poluição permanecem elevados. O documento, intitulado “Inquinamento zero, decarbonizzazione ed economia circolare nelle industrie ad alta intensità energetica”, desenha um diagnóstico claro: para avançar na redução de emissões será necessária uma transformação industrial profunda, aliada à plena aplicação da legislação ambiental da UE e a medidas suplementares.
Segundo a análise da AEA, nos últimos 20 anos as indústrias intensivas em energia conseguiram cortar as emissões de gases de efeito estufa em 42%. Setores estratégicos — siderurgia, química e produção de cimento — registraram quedas expressivas de poluentes atmosféricos: dioxinas (-63%), níquel (-64%) e NOx (-55%). Esses números confirmam que a conjugação entre avanço tecnológico e regulação pode produzir ganhos significativos. No entanto, sob essa façada estatística existe uma realidade mais complexa: o ritmo de melhoria desacelerou e a sociedade continua pagando um preço elevado em saúde, estimado em cerca de 73 bilhões de euros por ano.
O relatório chama atenção para um ponto crucial de cartografia econômica: a redução das emissões observada após 2020 não decorre apenas de ganhos em eficiência energética. Parte desse declínio reflete dificuldades econômicas e uma contração da atividade industrial. A queda do Valor Adicionado Bruto (VAB) nos setores relevantes sugere que a desaceleração produtiva e mudanças estruturais na economia estão contribuindo para a diminuição das emissões. Essas indústrias respondem por mais de 60% do consumo energético total do setor manufatureiro europeu e enfrentam um quadro de competitividade fragilizada, agravado pela crise energética e pela sobrecapacidade global, especialmente no aço.
Outro alicerce frágil do diagnóstico é o diferencial de preço da eletricidade: na UE a energia elétrica custa entre duas e quatro vezes mais que entre os principais parceiros comerciais, pressionando margens e empurrando decisões que, muitas vezes, priorizam a preservação de mercado sobre a inovação limpa.
Frente a esse tabuleiro, a AEA sustenta que a mera aplicação das normas vigentes não será suficiente. “O alcance de progressos adicionais dependerá da plena implementação da legislação ambiental e climática da UE existente, combinada com mudanças mais radicais nos processos industriais de alta intensidade de emissões”, afirma o relatório. Em outras palavras, é necessária uma transformação estrutural — tanto tecnológica quanto regulatória — que inclua incentivos robustos à descarbonização, promoção da economia circular e apoio à requalificação da força de trabalho industrial.
O documento se insere no contexto do Clean Industrial Deal da UE, iniciativa que visa acelerar a transição industrial limpa por meio de financiamento, inovação e reequilíbrio das condições de concorrência internacional. Do meu ponto de vista diplomático e estratégico, trata-se de um movimento que precisa ser orquestrado como um xeque pensado: combinar proteção pontual da indústria estratégica com estímulos à inovação, evitando deslocamentos abruptos de capacidade produtiva e desenhando redes de cooperação transfronteiriça para partilha de tecnologia limpa.
Em termos práticos, as recomendações da AEA apontam para um conjunto de medidas que inclui: modernização dos processos produtivos com tecnologias de baixo carbono, reforço da aplicação das normas ambientais, políticas que reduzam o custo relativo da energia limpa na UE e instrumentos que mitiguem o risco de fuga de emissões para jurisdições com padrões mais frouxos. Sem esses passos, a tectônica de poder econômico continuará a definir o mapa da poluição, e os ganhos ambientais poderão permanecer limitados por decisões econômicas reativas.
O relatório, portanto, é um chamado à ação estratégica: a redução adicional das emissões e a contenção dos custos sanitários exigem uma reconfiguração deliberada do modelo industrial europeu — um movimento que exige visão de longo prazo, capital público-privado e diplomacia econômica afinada.





















