De Strasbourg, por Marco Severini — O acordo de livre‑comércio entre a União Europeia e os países do Mercosur entra em uma das suas fases mais críticas: amanhã o hemiciclo da Eurocâmara vota se encaminhar o texto à Corte de Justiça da UE para uma verificação de compatibilidade com os tratados — um movimento que pode, na prática, suspender a ratificação já assinada pela presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, e aprovada pelos governos dos 27 Estados‑membros.
As imagens de agricultores e de uma carreata de tratores pelas ruas de Estrasburgo, promovida pela confederação Coldiretti, expressam o nervosismo social por trás do debate parlamentar: produtores temem a concorrência e exigem garantias sobre padrões sanitários e sanitização do mercado. No plano político, a votação de amanhã é prevista como “muito apertada” — um movimento decisivo no tabuleiro institucional europeu.
Em Davos, no palco do World Economic Forum, Ursula von der Leyen reafirmou o sentido geopolítico do pacto: “Este acordo envia uma mensagem forte ao mundo. Estamos escolhendo o comércio equitativo em vez das tarifas. A parceria em vez do isolamento. A sustentabilidade em vez da exploração”. A mensagem é clara: o tratado não é mera transação económica, mas um sinal de arquitetura estratégica num momento em que o eixo transatlântico demonstra erosões e surgem novas ambições na América Latina.
Os dois grandes grupos do Parlamento — os populares (PPE) e os socialistas (S&D) — endossam essa leitura. Manfred Weber, líder do PPE, qualificou o acordo como “um instrumento anti‑Trump”, que mostra que um approach baseado em regras permanece possível na Europa. Para Iratxe García Pérez, chefe do grupo socialista, um «sim» representa «a melhor resposta à doutrina Monroe» ressuscitada por posturas recentes de Washington.
No entanto, a votação de amanhã não é a ratificação final. Trata‑se de decidir se será dada tramitação à iniciativa, lançada em novembro por 145 eurodeputados de PPE, S&D, Renew, Verdes e The Left, para pedir o envio do acordo ao tribunal de Luxemburgo. Caso a Eurocâmara aprove essa solicitação, a etapa final de ratificação ficará suspensa até o pronunciamento dos juízes.
Na linha oficial do PPE, Jörgen Warborn, coordenador para comércio internacional, declarou que votará contra o pedido de envio à corte: para ele, “provavelmente não existe razão legal” que justifique o adiamento e a manobra teria um objetivo político para atrasar o processo — risco que, segundo Warborn, aumenta a impaciência dos parceiros externos. Admitiu, porém, que dentro da família popular há divisões entre delegações.
A mesma dinâmica de fraturas se observa na família socialista. Já a presidente dos liberais do Renew, Valérie Hayer, manifestou que apelar à Corte de Justiça da UE seria “o caminho correto”. O quadro é, portanto, de incerteza tática: mais do que um confronto jurídico puro, trata‑se de um embate entre prazos políticos, interesses setoriais e cálculos geoestratégicos.
Da minha leitura como analista: este é um movimento de xadrez em que todas as peças estão em jogo. O pedido de adiamento funciona como uma jogada profilática — ganha tempo para atores internos exporem suas reservas e para a diplomacia calibrar concessões. Se a Corte de Luxemburgo aceitar a análise, o resultado será um intervalo institucional que poderá redesenhar as fronteiras invisíveis da política comercial europeia. As fundações da diplomacia ficam, assim, temporariamente frágeis; cabe aos responsáveis transformar esse intervalo em estabilidade e não em mera dilação.
Expectativa prática: um voto apertado amanhã, possível suspensão temporária do processo e meses de incerteza até qualquer eventual pronunciamiento judicial. O resultado terá impacto não só sobre tarifas e mercados agrícolas, mas sobre o posicionamento estratégico europeu perante a América Latina e a arena transatlântica.
Palavras‑chave: UE‑Mercosur, Eurocâmara, Ursula von der Leyen, comércio equitativo, Corte de Justiça da UE, ratificação.






















