Óleo mineral usado é um resíduo perigoso cuja disposição inadequada causa danos profundos ao meio ambiente: quando vertido no solo contamina aquíferos; disperso na água, forma uma película que impede trocas gasosas essenciais à vida aquática; e se queimado de forma imprópria, libera poluentes nocivos. Ainda assim, a Itália se destaca por transformar esse risco em oportunidade ambiental e econômica, graças a um modelo de economia circular que recupera, regenera e devolve valor ao mercado.
À Espresso Italia, Riccardo Piunti, presidente do Conou (Consorzio Nazionale per la Gestione, Raccolta e Trattamento degli Oli Minerali Usati), descreve uma cadeia que funciona com eficiência rara no mundo. “O ciclo dos óleos minerais usados na Itália é o mais virtuoso existente: é uma excelência tanto na Europa quanto em comparação com países ocidentais como os Estados Unidos. Aqui coletamos a totalidade dos óleos (190 mil toneladas por ano) e regeneramos 98% desse total”, afirma Piunti à nossa redação.
Os números justificam o orgulho: em 2024 o Conou recuperou 188 mil toneladas de óleos usados por meio de aproximadamente 6.907 operações com autobot(t)es, realizadas pelos 58 concessionários que retiraram o resíduo de cerca de 103 mil produtores e pontos geradores ao redor do país. Da massa coletada, a maior parte foi encaminhada para três refinarias especializadas em regeneração; apenas 2.400 toneladas foram destinadas à termovalorização e cerca de 200 toneladas seguiram para termodistruição em incinerador autorizado.
Esse ciclo não é apenas técnico: ele tem impacto socioeconômico e ambiental concreto. O sistema recupera, a partir de um resíduo perigoso, cerca de 120 milhões de euros por ano em produtos de alto valor — sobretudo bases lubrificantes reutilizáveis, além de bitumen e gasóleos. Ambientalmente, o balanço é também luminoso: são evitadas cerca de 90 mil toneladas de CO2 equivalente, representando uma economia superior a 40% das emissões que seriam produzidas com matéria-prima virgem, além de reduzir em média 90% os demais poluentes gerados pela cadeia tradicional.
Do ponto de vista do trabalho e da economia local, o modelo gera efeitos palpáveis: em 2024, o sistema Conou criou um impacto direto de mais de 73,4 milhões de euros e ocupou mais de 1.850 pessoas em diversas etapas da cadeia. É a tradução prática de uma visão onde a gestão correta do resíduo se converte em emprego, renda e resiliência industrial.
Como curadora de mudanças e narradora dos avanços que iluminam o futuro, vejo nessa trajetória italiana um exemplo de como políticas consistentes, tecnologias maduras e uma cadeia integrada conseguem semear inovação e tecer laços sociais ao redor da sustentabilidade. Não se trata de otimismo ingênuo: é um projeto concreto, replicável, que revela novos caminhos para países que buscam reconciliar indústria e respeito ambiental.
O desafio seguinte é manter a excelência e expandi-la, reduzindo ainda mais o encaminhamento a termovalorização e termodistruição, elevando a capacidade de regeneração e difundindo boas práticas globalmente. Assim, a Itália segue como farol de referência — um horizonte límpido que sinaliza como transformar riscos ambientais em patrimônio compartilhado.






















