Por Aurora Bellini, Espresso Italia — Em 2026 a circularidade deixa de ser um tema técnico ou meramente reputacional e passa a integrar, de forma estrutural, os mecanismos econômicos, financeiros e industriais. Essa é a leitura que faço a partir das mudanças legislativas e de mercado que começam a consolidar um novo cenário competitivo para empresas e cadeias de valor.
Três vetores se destacam e iluminam o caminho para essa transformação. O primeiro é a entrada em vigor e a aplicação operacional de normas que redesenham a projetização dos produtos e das embalagens: o regulamento PPWR (Packaging and Packaging Waste Regulation), o direito à reparação, a extensão do Ecodesign e a exigência do Passaporte Digital do Produto previstos pelo ESPR (Ecodesign for Sustainable Products Regulation). Com isso, requisitos como reciclabilidade real, conteúdo de material reciclado, rastreabilidade e disponibilidade de dados passam a ser parâmetros de mercado, não apenas boas práticas.
O segundo vetor é a centralidade das cadeias e dos materiais secundários. Em 2026 consolida-se a compreensão de que a reciclagem não é apenas uma etapa de gestão de resíduos, mas uma alavanca de autonomia industrial e geopolítica, em consonância com o Critical Raw Materials Act e com os objetivos europeus de suprir parte da demanda por matérias-primas via reciclagem. Isso torna estratégico o investimento em infraestruturas de seleção, recuperação e processamento, além de impulsionar novas relações contratuais entre atores da cadeia.
O terceiro passo decisivo é a mensuração. A adoção de normas e indicadores — como a UNI/TS 11820 e o alinhamento com indicadores europeus — transforma a circularidade em algo auditável. Instituições financeiras, bancos e clientes exigem KPIs, evidências, LCA (Life Cycle Assessment) e conformidade com a Tassonomia da UE e com a CSRD. É a passagem definitiva da narrativa para a governança: quem não possuir métricas verificáveis corre riscos de acesso a capital, perda de mercado e exposição regulatória.
Neste panorama, a Itália parte de uma posição de vantagem. No que se refere ao processo de reciclagem, somos líderes europeus no índice de utilização circular de materiais, atrás apenas da Holanda e da Bélgica — com 21,6% frente a uma média da UE de 12,2% em 2024 — e já superando as metas europeias de reciclagem de embalagens. Essa vantagem competitiva é uma luz que revela possibilidades reais de desenvolvimento industrial sustentável.
No entanto, o caminho não é isento de sombras. A cadeia da plástica expõe desequilíbrios: apesar de volumes atraentes de coleta, persistem tensões entre oferta e demanda por material reciclado e problemas de competitividade industrial. Outro desafio premente são os RAEE (resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos) e as baterias, cujas taxas de coleta permanecem aquém das metas europeias. A dependência crescente de importações de materiais, que aumentou significativamente em valor nos últimos anos, também expõe empresas à volatilidade e a riscos geopolíticos — razão pela qual integrar a circularidade na gestão de risco da cadeia de suprimentos torna-se prioridade estratégica.
Para as empresas italianas, a grande tarefa é tornar a circularidade parte dos processos centrais: procurement, projeto, contratualização, compliance e gestão de risco. Tratar a circularidade como uma área isolada ou apenas como comunicação representa desperdício de oportunidade — bem como exposição a novos tipos de risco regulatório e financeiro. Quando incorporada aos processos core, a circularidade gera ganhos palpáveis: eficiência operacional, redução de custos, acesso facilitado a crédito e maior resiliência frente a choques de oferta.
Do ponto de vista financeiro, o mercado exige sinais claros. Investidores e instituições de crédito pedem indicadores sólidos e auditorias que comprovem desempenho circular. Simultaneamente, compradores — sejam empresas ou consumidores finais — valorizam transparência sobre origem dos materiais, conteúdo reciclado e rastreabilidade. Empresas que anteciparem e integrarem esses requisitos terão melhor acesso a capital, contratos e cadeias de suprimento preferenciais.
Há um componente cultural e organizacional que não pode ser negligenciado. Integração da circularidade exige novos perfis profissionais, sistemas de informação capazes de rastrear materiais ao longo do ciclo de vida e modelos de negócio que valorizem o reparo, a reutilização e a recuperação. É um chamado para que áreas de P&D, compras, jurídico, sustentabilidade e operações conversem com maior frequência — tecendo laços que irradiem valor.
Em nossa atuação na Espresso Italia, vemos empresas de todos os setores iniciando esse processo de transformação com pragmatismo: desenhando produtos com fim de ciclo previsto, negociando cláusulas que incentivem retorno de materiais, monitorando KPIs e implementando testes de LCA. Trata-se de semear inovação que, ao florescer, ilumina novos caminhos de competitividade e legado.
2026 será, portanto, um ano de provas e de oportunidades. As regras do jogo mudam em definitivo: quem internalizar a circularidade como condição para competir não só preserva recursos e reduz riscos, como também contribui para um horizonte límpido, de maior autonomia industrial e impacto positivo. É o momento de agir com visão prática e coragem ética — transformar obrigações em vantagem competitiva, e moldar um renascimento cultural que perdure para além das normas.
Nota: análise baseada em legislação europeia e indicadores de mercado; contextualizada e adaptada para a perspectiva da Espresso Italia.






















