Por Alessandro Vittorio Romano
No outono da história científica, quando as campanhas contra o vaiolo já formavam a paisagem pública, o naturalista britânico Alfred Russel Wallace publicou, em 1889, um ensaio que ainda ressoa nas discussões contemporâneas: “Vaccination proved useless and dangerous”. Com a calma de quem observa ciclos e safras, Wallace colheu números oficiais e desenhou um alerta — não um panfleto inflamado, mas uma colheita de estatísticas que o levou a questionar a imposição da vacinação obrigatória.
Ao contrário do tom inflamado que às vezes aproxima história e lenda, Wallace baseou-se em registros governamentais: estatísticas oficiais, certidões de óbito e dados públicos compilados ao longo de cerca de 45 anos. Seu argumento central não afirmava, com rigidez causal, que as vacinas eram a única causa de alterações na mortalidade; antes, ele apontava uma tendência inquietante nas cifras: enquanto os casos e mortes por vaiolo diminuíam, a mortalidade por outras doenças infecciosas mostrava, em alguns períodos, um aumento que chegava a superar as reduções obtidas contra o próprio vaiolo.
É desta observação que nasce a sua hipótese — e também a sua advertência ética. Wallace chegava a dizer que obrigar a população a submeter-se a uma inoculação compulsória era, em essência, um ato de despotismo, pois impunha riscos que os números não conseguiam dissipar por completo. Sua proposta era, portanto, a liberdade de escolha informada, sustentada por dados públicos e transparência administrativa.
Ao ler essas páginas hoje, sinto a respiração das estações políticas: debates recentes sobre obrigações vacinais durante a pandemia de Covid-19 alimentaram discussões semelhantes, com episódios de aversão e de adoção autoritária de medidas. Políticos e governos navegaram entre recomendações de saúde pública e decisões que tocaram o tecido civil — episódios que acenderam velhas perguntas sobre proporcionalidade, confiança pública e uso de estatísticas pelo poder.
O que Wallace nos oferece, mais do que uma condenação ou absolvição tecnológica, é um método: examinar a própria matéria-prima das políticas — os dados oficiais — e perguntar, com gentileza rigorosa, que histórias eles contam e que silêncios escondem. É um convite a tratar a saúde pública como uma paisagem viva, cuja gestão exige tanto conhecimento técnico quanto respeito pelas raízes sociais do bem-estar.
Para quem vive a Itália e busca traduzir essas lições para o cotidiano, a mensagem é clara como a luz de fevereiro: as decisões sobre vacinação e liberdade individual são como escolhas de plantio. Exigem previsão, cuidado e, sobretudo, a humidade da transparência — só assim nossas cidades e corpos poderão florescer sem que se percam em estações secas de desconfiança.
Alessandro Vittorio Romano — La Via Italia






















