Uma pesquisa abrangente da Universidade de Turim, publicada em The Lancet Regional Health, revela que quase metade dos adultos em Itália mostra formas variadas de hesitação vacinal. Segundo o estudo, a taxa de desconfiança atinge 46,09% entre a população adulta, um número que descreve um terreno fértil de incertezas, atrasos e seletividade em relação às vacinações recomendadas.
O levantamento, coordenado por investigadores italianos e baseado numa amostra representativa de mais de 52 mil adultos entrevistados entre setembro de 2024 e março de 2025, traça um quadro que tem raízes no ano de 2021 — o período-chave da fase pandémica, marcado por medidas restritivas, obrigações como o Green Pass e campanhas de vacinação em massa com soro da Pfizer e Moderna.
Os autores do estudo utilizaram uma escala validada internacionalmente para distinguir duas dimensões principais do fenómeno. A primeira é a percepção do risco: o receio perante possíveis efeitos adversos e dúvidas sobre a segurança dos produtos. A segunda é a desconfiança nas instituições: uma perda de crédito nas autoridades de saúde, na comunicação oficial e nas figuras de referência. São planos diferentes que muitas vezes se entrelaçam e exigem respostas distintas das políticas de saúde pública.
Os dados expõem ainda desigualdades sociais e culturais: níveis mais elevados de hesitação encontram-se entre pessoas que recorrem a medicina alternativa, entre indivíduos com menor confiança nas instituições e entre aqueles que não percebem apoio claro por parte de profissionais de saúde.
O estudo também relata o papel controverso dos acontecimentos concretos de 2021 — quando a vacinação foi, em muitos contextos, fortemente incentivada ou exigida — e das notificações de eventos adversos graves, incluindo casos letais. Ainda que existam posições científicas e judiciais divergentes, o artigo menciona que algumas instâncias e trabalhos posteriores apontaram ligações entre vacinações e determinados efeitos adversos que suscitaram debate público e judicial.
Em paralelo, a cobertura de certos episódios trouxe à tona denúncias e investigações, como a intervenção do pesquisador em genómica Kevin McKernan, citada em meios internacionais, que afirma ter encontrado vestígios de sequências do soro em amostras analisadas. Essas alegações alimentaram uma narrativa de medo e alimentaram o aumento da desconfiança, mesmo quando a comunidade científica exige estudos adicionais e revisão metodológica rigorosa.
Para a saúde pública, o número de 46,09% constitui um desafio claro: quando quase metade dos adultos hesita em vacinar-se, campanhas de prevenção — incluindo vacinas sazonais — podem sofrer impacto e a credibilidade do sistema de saúde pode ficar comprometida. A pesquisa sublinha a necessidade de estratégias customizadas, que tratem separadamente a preocupação com a segurança e o problema da confiança institucional.
Num país onde a paisagem social e emocional foi profundamente alterada pela pandemia, a questão transcende estatísticas. Como alguém que observa a respiração da cidade e as pequenas estações do cotidiano, penso na hesitação vacinal como uma raiz sensível do bem-estar coletivo: precisa de escuta, de terreno bem preparado e de gestos de confiança — tal como cuidamos de um jardim após um inverno longo. Só assim será possível recuperar não só a adesão às vacinas, mas também a calma necessária para que a saúde pública floresça com confiança renovada.
Palavras-chave em destaque: vacinas, desconfiança, Green Pass, efeitos adversos, hesitação vacinal





















