Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma cirurgia que pareceu desafiar a própria orientação do corpo, os profissionais do hospital Molinette da Città della Salute di Torino realizaram com sucesso um transplante combinado de coração e fígado em bloco em um paciente de 32 anos nascido com situs viscerum inversus, a rara condição anatômica em que os órgãos internos se dispõem como num reflexo em um espelho.
O homem, natural da Campania, conviveu desde a infância com uma grave cardiopatia congênita que exigiu três cirurgias cardíacas abertas ao longo da infância e adolescência. Essas intervenções, embora fundamentais para que ele chegasse à vida adulta, deixaram marcas: com o tempo, o fígado sofreu um desgaste progressivo que evoluiu para cirrose. No último ano, a situação complicou-se com o aparecimento de um carcinoma hepático. Tratamentos locais controlaram temporariamente a enfermidade, mas o surgimento de um novo nódulo tornou urgente a única solução possível: um transplante combinado de coração e fígado.
A existência do situs viscerum inversus transformou o desafio médico em uma situação quase poética — e tecnicamente complexa. A disposição invertida dos órgãos impõe um quebra-cabeça anatômico que torna muito difícil o encaixe de enxertos vindos de doadores com anatomia convencional. Por isso, a equipe campana encaminhou o paciente à cidade de Turim, onde especialistas imaginaram e planejaram uma intervenção inédita.
Uma equipe multidisciplinar liderada pelos cardiocirurgiões Carlo Pace Napoleone, Mauro Rinaldi e Massimo Boffini, com a hepatologista Silvia Martini e o cirurgião hepático Renato Romagnoli, definiu a estratégia: inscrever o jovem na lista para receber o bloco coração-fígado como unidade única. A notificação de um doador compatível veio via Coordinamento Donazione e Prelievi do Piemonte. Enquanto o paciente era preparado na sala operatória, os cirurgiões do hospital do doador realizaram o prélio do bloco mantendo comunicação permanente com Turim.
Ao chegarem os órgãos, tudo estava pronto. Sob a supervisão de Mauro Rinaldi, os cardiochirurgi mostraram grande precisão ao implantar o coração ainda disposto em continuidade com o fígado, ao mesmo tempo em que a equipe hepática posicionava o fígado em sua sede fisiológica. A operação durou dezessete horas — mais de doze delas de cirurgia ativa — e exigiu soluções criativas: novas conexões vasculares, uso de segmentos de vasos do doador e trajetos técnicos nunca antes testados. Como em um jardineiro que reconstrói raízes, os cirurgiões redesenharam caminhos para devolver a circulação.
Ao final do procedimento, o bloco coração-fígado retomou a função adequada. O paciente segue internado na área semintensiva cirúrgica do Centro Trapianto Fegato e enfrenta um pós-operatório complexo, porém bem conduzido pela equipa de Cardio-Rianimazione, com suporte de infectologistas, nefrologistas e cirurgiões vasculares. A reabilitação evolui de forma positiva, passo a passo, como a respiração lenta de uma cidade que desperta.
“Os nossos profissionais tornaram possível aquilo que parecia impossível”, disse o diretor-geral da Città della Salute e della Scienza, Livio Tranchida. É a prova de como a cooperação clínica, a coragem técnica e a sensibilidade humana — a colheita de saberes de várias especialidades — podem transformar um cenário de urgência em esperança concreta.
Esta intervenção inédita não é apenas uma vitória técnica: é um lembrete de como a medicina contemporânea, quando guiada por criatividade e cuidado, pode resgatar ritmos vitais e reconstruir o tempo interno do corpo. A história do jovem da Campania segue sendo escrita, agora com mais calma, sob os olhos atentos de quem cuida e de quem espera pelo florescer de uma vida restaurada.






















