Por Alessandro Vittorio Romano — Em um encontro com a imprensa em Milão promovido pela MSD Italia, o cardiologista Stefano Ghio, presidente da Rede Italiana de Hipertensão Pulmonar (Iphnet) e responsável pela Unidade de Cardiomiopatias, transplantes e hipertensão pulmonar do IRCCS Policlinico San Matteo de Pavia, destacou uma mudança de paisagem terapêutica: Sotatercept não é apenas mais um vasodilatador, mas o primeiro fármaco a atuar sobre a própria causa da doença.
“Sotatercept é um fármaco inovador porque ataca a causa da doença, ou seja, a proliferação celular”, explicou Ghio. Enquanto as terapias disponíveis até então eram, em grande parte, vasodilatadores — eficazes para aliviar os sintomas e reduzir a pressão nas artérias pulmonares — muitas só controlavam parcialmente o processo proliferativo. A novidade do sotatercept reside, portanto, em seu mecanismo de ação que visa frear a multiplicação descontrolada das células que engrossam as paredes arteriais.
Ghio lembrou que a hipertensão arterial pulmonar (IAP) é uma condição rara: estima-se que haja cerca de 3.500 pacientes na Itália. A raridade faz com que o diagnóstico seja muitas vezes tardio, porque, no início, os sintomas são inespecíficos — falta de ar e cansaço — e podem ser confundidos com males mais comuns do coração e do pulmão.
“É uma doença primária, geneticamente determinada, do leito vascular pulmonar”, aprofundou o especialista. “As paredes das artérias pulmonares espessam-se por conta de uma proliferação incontrolada das células endoteliais e das células musculares lisas. O lúmen vascular reduz, a pressão aumenta e o coração precisa de muito mais esforço para bombear o sangue ao pulmão. Nasce no pulmão, mas altera profundamente a função cardíaca — e essa alteração condiciona a sobrevida do paciente.”
Além da complexidade intrínseca, há outro risco: a doença muitas vezes se esconde entre várias patologias cardíacas e pulmonares comuns que também elevam a pressão nas artérias pulmonares. “Cada doença tem sua terapia específica. Há, portanto, o duplo risco de não reconhecer a doença rara ou de diagnosticá-la equivocadamente em quadros de doenças mais frequentes. A consequência é que esses pacientes podem receber medicamentos ineficazes — e muito caros — que oneram o Serviço Nacional de Saúde”, ressaltou Ghio.
Sobre o caminho diagnóstico, Ghio indicou que uma bateria de exames deve ser realizada em centros de referência. Para o médico de família, a recomendação é clara: em pacientes com dispneia ou fadiga, sempre realizar ao menos uma radiografia de tórax e um eletrocardiograma. Se o quadro suscitar suspeita, o exame diagnóstico inicial de escolha é o ecocardiograma. Confirmado o suspeito, o encaminhamento rápido ao centro de referência é essencial, pois apenas nessas unidades a avaliação precisa e a estratégia terapêutica adequada — incluindo a avaliação para o uso de sotatercept — podem ser corretamente implementadas.
Como observador atento das estações da vida e da medicina, penso nesta notícia como a chegada de uma nova semente a um jardim que vinha sofrendo de solo pobre: o sotatercept representa uma esperança que age sobre as raízes do problema, e não apenas alivia as folhas ressequidas. Em tempos em que a saúde pede leitura atenta dos sinais sutis do corpo — a respiração mais curta numa caminhada ou o cansaço que não cede — reconhecer cedo estas mudanças é como cuidar de uma árvore ainda jovem, garantindo que suas raízes cresçam fortes.
Em resumo: a aprovação do reembolso pela Agência Italiana do Medicamento (AIFA) para sotatercept marca um avanço relevante para pacientes com hipertensão pulmonar na Itália. Resta, contudo, o desafio de melhorar a suspeita clínica e o encaminhamento aos centros especializados, para que essa nova opção terapêutica chegue aos pacientes que mais podem se beneficiar.






















