ROMA — Em Roma foi apresentado o relatório Quando i soldi non bastano – Il razionamento sanitario in Italia, que acende um foco sobre as crescentes desigualdades de saúde no país e propõe um conjunto de medidas para resgatar a equidade no acesso aos cuidados. As propostas, reunidas em sete movimentos estratégicos, apontam para uma mudança de ritmo: da emergência hospitalar para a atenção contínua e territorial.
Segundo Raffaella Dispenza, vice‑presidente nacional das Acli, “para combater as desigualdades são necessários intervenções complexas e articuladas: maiores investimentos na saúde, alinhando‑os aos de outros países europeus, mas sobretudo uma medicina de território que saiba cuidar das cronicidades e responder às muitas situações de não autosuficiência”. A frase toca a raiz do problema: a longevidade crescente mudou a paisagem das necessidades e o que o cidadão espera do sistema de saúde.
Do texto do relatório emergem sete propostas centrais, pensadas como alavancas para transformar a respiração do sistema. Elas combinam políticas públicas, redistribuição de recursos e inovação organizativa:
- Fortalecer a prevenção: investir mais em promoção da saúde e prevenção primária, reduzindo fatores de risco e atrasando o aparecimento de doenças crônicas. A prevenção é a colheita de hábitos que reduz a pressão sobre o hospital.
- Reforçar a medicina de território: consolidar equipes de atenção primária capazes de assumir o cuidado continuado de pessoas com doenças crônicas e deficiência, oferecendo respostas próximas ao domicílio e evitando deslocamentos desnecessários.
- Aumentar investimentos públicos: trazer o financiamento do sistema em linha com a média europeia, para que a oferta de serviços corresponda às necessidades reais de uma população que vive mais tempo.
- Atualizar os Livelli Essenziali di Assistenza (Lea): reavaliar e ampliar os serviços garantidos para refletir as novas exigências demográficas e tecnológicas, garantindo o acesso equitativo em todo o território.
- Promover maior equidade fiscal: medidas tributárias e de redistribuição que aliviem o peso das despesas sanitárias sobre as famílias mais vulneráveis, reduzindo barreiras econômicas ao acesso.
- Estimular seguros integrativos e mutualísticos: apoiar formas de proteção suplementar não lucrativas e mutualistas, que complementem o sistema público sem privatizá‑lo ou aumentar a fragmentação do acesso.
- Combater o racionamento por planejamento territorial: enfrentar o problema do racionamento implícito com planejamento, transparência e redistribuição de recursos, para que a oferta responda à diversidade local e não apenas às urgências.
Estas medidas não são panaceias, mas representam uma arquitetura integrada: prevenção, cuidados locais e financiamento justo. A proposta do relatório encontra ressonância na ideia de que a saúde é um ecossistema — a “respiração da cidade” — onde cada estação (prevenção, assistência, reabilitação) precisa estar equilibrada para que o organismo social funcione.
No plano prático, os especialistas defendem intervenções coordenadas entre governo central e administrações locais, políticas fiscais orientadas à justiça social e incentivos a modelos de assistência que priorizem a continuidade do cuidado. Para Raffaella Dispenza, o desafio é traduzir investimentos em serviços realmente acessíveis: “a sustentabilidade do sistema passa por ser capaz de cuidar das fragilidades que a longevidade traz”.
Como um jardineiro que observa as estações e ajusta a irrigação, o sistema de saúde precisa de sensibilidade — entender onde há secas de serviços, onde é urgente plantar programas de prevenção e como colher melhores resultados para todos, sem deixar áreas ou grupos humanos ao relento. Só assim será possível enfrentar as desigualdades de saúde com políticas que combinam técnica e cuidado.
Por fim, o relatório chama atenção para a urgência de ação coordenada: medidas isoladas podem atenuar problemas, mas é a sinfonia das sete propostas — prevenção, território, investimento, Lea, equidade fiscal, seguros mutualísticos e planejamento — que tem potencial de transformar o cenário e devolver dignidade e acesso a quem hoje encontra portas fechadas.





















