Por Alessandro Vittorio Romano — Enquanto a atenção pública migra das Olimpíadas de Inverno Milan‑Cortina 2026 para o brilho e a emoção do Festival de Sanremo, aflora um sentimento que é mais do que curiosidade: é a ansiedade de não ficar de fora. O psicólogo Pietro Bussotti, do diretivo do Observatório Bem‑Estar Psicológico e Saúde (Benèpsys), chama atenção para a crescente presença do Fear of Missing Out — ou FOMO — como motor social que alimenta viagens, postagens e a necessidade de prova pública de participação.
Na minha observação cotidiana, a cidade se torna uma respiração colectiva durante eventos como esses: quem vai a Sanremo não vive apenas o espetáculo dentro do Teatro Ariston, mas também a promessa de ser visto fora dele, nas telas alheias. Como descreve Bussotti, a palavra de ordem hoje é estar — e provar que se esteve. Fotografias, vídeos, stories, comentários: a experiência transmuta‑se em narrativa digital e a visibilidade passa a ser objetivo em si.
Bussotti lembra que a literatura científica define a FOMO como “uma apreensão pervasiva de que outros possam estar a viver experiências gratificantes das quais estamos ausentes” (Przybylski et al., 2013). Estudos subsequentes consolidam a relação entre esse medo e o uso intensivo das redes sociais, mostrando que, especialmente entre adolescentes, a FOMO prediz maior frequência nas plataformas e comportamentos como o phubbing — priorizar o dispositivo sobre o encontro face a face. Em adultos, ainda que a dinâmica mude, a associação entre FOMO e uso intensivo de redes também é consistente, contribuindo para padrões de atenção fragmentada e busca constante por validação online.
O fenômeno tem duas camadas que me interessam: a objetiva — pessoas que viajam até Sanremo apenas para “estar” — e a simbólica — a experiência que se consuma sobretudo na representação digital. Em muitos casos, a viagem transforma‑se numa colheita de conteúdos a serem semeados nas timelines alheias. A visibilidade digital torna‑se, por isso, um fruto cobiçado, e o desejo de aparecer nas imagens e nas histórias alheias é, ao mesmo tempo, sinal de pertencimento e de insegurança social.
Como guia sensível destes costumes, proponho olhar com ternura e lucidez para essa pressa de presença. A breve colheita de likes pode aquecer o momento, mas também deixar um inverno de insatisfação se não houver raízes pessoais de bem‑estar — autonomia, competência e relações verdadeiras — a sustentar a experiência. Reconhecer o FOMO é o primeiro passo para reconectar o tempo interno do corpo com o ritmo exterior da cidade: escolher quando participar por gosto e quando por impulso, dar prioridade à presença sentida em vez da presença provada.
Para profissionais de saúde mental e organizadores culturais, a observação de Bussotti é um convite para criar espaços que valorizem experiências não apenas mediatizadas, mas vividas. Para quem assiste, é a lembrança de que a melhor fotografia pode ser aquela que guardamos na memória e no corpo, sem necessidade de legenda.
Em tempos em que a visibilidade digital funciona como moeda social, cultivar a atenção plena — como quem rega um pequeno jardim em plena cidade — pode ser a forma mais humana de resistir ao ritmo acelerado de aparecer a todo custo.






















