Por Giulliano Martini — Em meio à preparação de menus para o Dia de São Valentim, persistem crenças populares que associam certos alimentos a efeitos afrodisíacos. Ostras, chocolate, pimenta e uma taça de champanhe reaparecem em listas e cardápios, com a promessa implícita de que consumir esses itens aumentaria o desejo e o desempenho sexual. Cruzamento de fontes e checagem junto à plataforma anti-bufala “Dottore ma è vero che…?”, mantida pela FNOMCeO (Federação Nacional dos Conselhos de Médicos, Cirurgiões e Odontologistas), indicam que a maioria dessas alegações carece de respaldo científico.
O termo afrodisíaco remete à deusa grega Afrodite e é usado para classificar substâncias que supostamente ampliam o prazer e a libido. Segundo especialistas consultados, a existência cultural de tais crenças é universal e histórica, mas não equivale a evidência. Para que um alimento fosse comprovadamente afrodisíaco, deveria produzir efeitos fisiológicos claros: aumentar a vasodilatação e o fluxo sanguíneo para os órgãos sexuais; elevar a sensibilidade física e psicológica; modular hormônios envolvidos no desejo; e causar resposta rápida com uma única ingestão. Nada disso é demonstrado de forma robusta para os itens tradicionalmente apontados.
Em termos práticos, algumas substâncias presentes nos alimentos exercem ações biológicas bem documentadas — mas não necessariamente ligadas ao aumento do desejo sexual. A pimenta, por exemplo, contém capsaicina, um composto estudado pela farmacologia por suas propriedades anti-inflamatórias, digestivas e analgésicas. Pequenas porções como as usadas em uma refeição não produzem efeitos sexualmente estimulantes significativos. A tentativa de vincular a sensação de calor ou excitamento provocada pelo ardor da pimenta a um aumento do desejo é uma associação teórica, não uma conclusão empírica.
No caso das ostras, a menção recai sobre o teor de zinco, mineral que participa da síntese de testosterona. Estudos isolados avaliam a relação entre deficiência de zinco e funções reprodutivas, mas não há evidências consistentes de que o consumo ocasional de ostras melhore o desempenho sexual em indivíduos sem deficiência.
O chocolate é outro protagonista das narrativas românticas. Compostos como a serotonina e a feniletilamina são citados nas tradições populares como promotores do bem-estar e da atração. A realidade traduzida pela ciência é mais contida: o chocolate pode modular o humor em curto prazo, mas não há provas de que uma sobremesa transforme reflexos fisiológicos sexuais ou aumente substancialmente o desejo.
Finalmente, o álcool — presente em espumantes e vinhos de celebração — atua como desinibidor em pequenas quantidades, mas o consumo além do moderado prejudica a resposta sexual, a sensibilidade e o desempenho. A linha entre relaxamento e comprometimento orgânico é estreita.
Conclusão dos especialistas: não é necessário evitar esses alimentos no Dia de São Valentim, desde que se tenha expectativa realista. Para alterações relevantes na função sexual, os caminhos comprovados são terapias farmacológicas específicas e intervenções psicológicas. A preferência por um menu afrodisíaco permanece, em grande medida, um efeito cultural e simbólico — útil para a atmosfera, porém sem milagres fisiológicos.
Apuração com base em fontes da plataforma “Dottore ma è vero che…?” da FNOMCeO e revisão de literatura médica; cruzamento de dados e checagem de evidências, Giulliano Martini, correspondente.


















