ROMA, 30 de janeiro de 2026 — Em milaneses corredores do XXVII congresso nacional da Sociedade Italiana de Neuropsicofarmacologia (SINPF), um tema que durante décadas ficou à margem da medicina voltou a pulsar com delicadeza: o uso de psichedélicos em doses subperceptivas, conhecido como microdosing, para tratar ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós‑traumático (TEPT).
“Depois de tê-los banido por cerca de meio século por serem considerados de alto risco e sem valor médico, os psichedélicos retornam ao centro do interesse científico com um potencial terapêutico significativo”, declarou o psiquiatra Claudio Mencacci, diretor emérito do Departamento de Neurociências do Hospital Fatebenefratelli Sacco, em Milão, e co‑presidente da SINPF. Segundo Mencacci, estudos recentes sugerem que microdoses de psilocibina e LSD — da ordem de 5 a 10% de uma dose padrão — podem ajudar a “resetar” circuitos neurais comprometidos em quadros como a depressão maior e o TEPT.
Os pesquisadores observam que essas pequenas quantidades favorecem a formação de spines dendríticas, estruturas fundamentais para a aprendizagem e a memória, e melhoram a conectividade sináptica em redes cerebrais envolvidas no humor e na regulação emocional. Em palavras mais sensíveis: seria como regar, com cuidado, as raízes de um jardim que perdeu o vigor, estimulando a volta de brotos capazes de sustentar um novo equilíbrio.
No entanto, os debatedores também ressaltaram cautela. Embora o horizonte seja promissor, a transição do laboratório para a clínica exige protocolos rigorosos: ensaios randomizados controlados, padronização de doses, critérios de segurança e formação específica para os profissionais que possam prescrever ou acompanhar tratamentos com microdosing. O histórico de proibição e a possibilidade de uso indevido pedem um enquadramento regulatório claro.
O contraste entre a dose subperceptiva e a experiência psicodélica plena foi destacado: enquanto doses maiores podem provocar alterações perceptivas intensas e requerer contextos terapêuticos muito cuidados, o microdosing busca efeitos subtis, quase imperceptíveis, que atuem sobre a plasticidade cerebral sem a mesma intensidade sensorial. Ainda assim, é preciso entender melhor quem se beneficia, por quanto tempo e sob quais riscos.
Para além da técnica, falou‑se também de integração: incorporar essas abordagens à rede de cuidados implica considerar o ritmo íntimo do paciente — o “tempo interno do corpo” — e a respiração social que envolve apoio psicossocial, acompanhamento médico e políticas públicas que protejam pacientes e profissionais.
Ao fechar o painel, ficou claro que a redescoberta dos psichedélicos é menos uma promessa milagrosa e mais uma colheita de hipóteses que precisa ser conduzida com respeito aos ciclos da ciência e da ética. A paisagem do tratamento psiquiátrico pode estar despertando para novas cores, mas só a prática clínica robusta dirá quais flores realmente permanecerão na estação.
Assinado, Alessandro Vittorio Romano — Espresso Italia.






















