Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma cena que mistura ritual urbano e debate científico, o café foi levado ao banco dos réus em Milão. A iniciativa do Ordine dei Medici di Milano transformou uma das bebidas mais enraizadas na rotina italiana em assunto de tribunal: não se tratou de condenar o gesto cotidiano de segurar uma xícara quente, mas de examinar, com olhos médicos e espírito crítico, seus efeitos e limites.
O evento, intitulado Processo al caffè, aconteceu na Fondazione Giangiacomo Feltrinelli e teve como presidente do debate o juiz Fabio Roia. No palco estiveram a público ministero Tiziana Siciliano, as advogadas de defesa Ilaria Li Vigni e Giorgia Andreis, o perito e médico legista Umberto Genovese e uma série de testemunhos e especialistas, após a introdução histórica do professor Elio Franzini, da Universidade de Milão.
Ao término dos trabalhos, a Corte decidiu pela absolvição do acusado com base no artigo 530, comma 2, do Código de Processo Penal, entendendo que a responsabilidade não foi demonstrada além de qualquer dúvida razoável. Foi também rejeitado o núcleo acusatório inspirado no artigo 444 do Código Penal, relativo ao suposto perigo para a saúde pública.
No entanto, a sentença não foi um salvo-conduto irrestrito. O magistrado deixou claro que a leitura do tema deve ser articulada e não simplificada. Em especial, destacou-se a necessidade de distinguir entre cafeína — a substância psicoativa — e o próprio café, bebida culturalmente impregnada de sabor e rituais. O tribunal indicou que se evite um consumo excessivo e sugeriu, em linha com parâmetros mínimos de diretrizes, uma orientação de não ultrapassar três xícaras de café italiano por dia para a população em geral.
Foi também enfatizada a diferença entre pessoas saudáveis e aquelas com condições clínicas: indivíduos com patologias cardiovasculares, distúrbios neurológicos ou problemas de sono merecem atenção especial e aconselhamento individualizado. Roberto Carlo Rossi, presidente do Ordine, ressaltou que a intenção foi oferecer à população elementos para uma avaliação consciente e confiar à comunidade médica a continuidade do debate.
Do lado da acusação, a argumentação focou no caráter de substância psicoativa da cafeína e nos potenciais riscos para grupos vulneráveis. O cardiologista Stefano Carugo alertou que, em pacientes sensíveis, o consumo do café pode agravar hipertensão, provocar insônia crônica, palpitações e crises de ansiedade. Entre crianças e adolescentes, a recomendação é de evitar a exposição, e na gravidez prevalece a máxima prudência das sociedades científicas.
Como observador do cotidiano e amante das pequenas rotinas que moldam bem-estar, vejo nessa decisão uma metáfora do equilíbrio: o café é parte da respiração diária da cidade, mas sua relação com o corpo pede um cuidado semelhante ao de regar uma planta — muita água pode sufocar a raiz. O veredito milanês absolve o ritual, mas aconselha moderação e personalização do consumo, lembrando que, para alguns, menos acaba sendo mais.
Para quem, ao final do expediente, procura no aroma de uma xícara um gesto de reconexão, a recomendação é simples e sensata: aprecie o sabor, respeite seus sinais biológicos e consulte seu médico se houver condições preexistentes. Assim transformamos a rotina do café numa colheita de hábitos que nutrem, em vez de perturbar, o tempo interno do corpo.






















