Em um avanço que lembra o ritmo cuidadoso de uma estação que muda, pesquisadores italianos implantaram pela primeira vez no mundo uma corda tendínea bioengenheirada em um modelo animal de grande porte. O procedimento foi realizado no mês passado pela professora Maria Grandinetti, na Universidade Cattolica del Sacro Cuore, sob a orientação do professor Massimo Massetti, diretor do Instituto de Cardiologia e da Área Cardiovascular da Cattolica.
O feito, descrito pela equipe como “um ponto de virada histórico para a engenharia de tecido e para o tratamento das doenças da válvula mitral”, integra o projeto BioChord — Chordae tendineae bioingegnerizzate para reparar e regenerar as válvulas cardíacas — financiado pelo European Research Council (ERC) via Proof of Concept Grant.
Coordenado por Antonio D’Amore, líder do Grupo de Engenharia de Tecidos Cardiovasculares da Fundação Ri.Med e professor de Bioengenharia na Universidade de Palermo e no McGowan Institute (University of Pittsburgh, EUA), o projeto reúne uma equipe multidisciplinar que inclui Arianna Adamo, cientista em mecanobiologia na Ri.Med, e Maria Emiliana Caristo, responsável pelo bem-estar animal e pelo Centro experimental de pesquisa na Universidade Cattolica.
A importância dessa inovação nasce do impacto clínico da condição que se pretende tratar: a regurgitação mitral afeta mais de 24 milhões de pessoas no mundo, segundo a Fundação Ri.Med. Em muitos casos, essa insuficiência valvar decorre do desgaste ou da ruptura das cordas tendíneas, os verdadeiros “tirantes” que garantem a vedação da válvula mitral.
Até hoje, a substituição dessas cordas tem-se apoiado majoritariamente em suturas de politetrafluoroetileno expandido (ePTFE, conhecido comercialmente como Gore‑Tex). Embora eficazes, esses materiais sintéticos apresentam limitações estruturais: sua rigidez pode provocar isquemia nos músculos papilares, risco de ruptura ou indução de fibrose ao longo do tempo.
O BioChord propõe um paradigma diferente. Não é apenas um novo material de sutura, mas uma peça de engenharia de tecido: uma corda polimérica biomimética e biodegradável, projetada para replicar fielmente a estrutura e a função das cordas naturais do coração. A ideia é que a prótese ofereça suporte mecânico imediato e, gradualmente, seja substituída por tecido autólogo do paciente à medida que o material se degrada.
“O cerne do nosso trabalho é o biomimetismo — diz D’Amore —. Em laboratório, criamos cordas tendíneas com propriedades e funções espelhadas às dos tecidos do coração humano. Feitas de materiais biodegradáveis, as cordas BioChord dão suporte imediato ao aparelho valvar enquanto orientam o crescimento do próprio tecido do paciente, transformando-se progressivamente em uma corda natural e funcional.”
O laboratório de D’Amore foi pioneiro na introdução dessa técnica, que já é objeto de patente e cujo desenvolvimento para comercialização foi concedido à spin-off Neoolife. A avaliação em cenário de relevância clínica, agora ampliada pelo teste em modelo animal de grande porte, marca um passo decisivo rumo a aplicações humanas.
Como observador do cotidiano e das pequenas colheitas que moldam a saúde, vejo neste resultado uma espécie de “despertar da paisagem” cardiovascular: uma solução que respira com o corpo, guiando a regeneração em vez de simplesmente substituir. É um sopro de primavera para quem convive com a solidão do coração doente, e um convite para que continuemos a cuidar das raízes do bem‑estar com ciência e sensibilidade.





















