Na Sala Refettorio da Câmara dos Deputados, um encontro cuidadosamente pensado trouxe ao centro do debate a prevenção odontológica voltada para pacientes frágeis. O congresso “Odontoiatria speciale nel soggetto fragile”, promovido pela Sioh em parceria com o Cnel e a Federação das Associações de Hemofílicos (FedEmo), reafirmou que a saúde bucal desses indivíduos exige mais do que técnica: exige sinergia, empatia e políticas públicas integradas.
Marco Magi, médico cirurgião e ex-presidente da Sioh, destacou três dimensões que fazem da prevenção odontológica um investimento humano e social: benefícios econômicos, biológicos e emocionais — este último afetando a família inteira. “Uma noite em claro por causa da dor de dente envolve toda a família”, lembrou Magi, como quem observa o eco íntimo dos sintomas no cotidiano. Em sua fala, ele ressaltou também que a prevenção pode diminuir o elevado número de anestesias a que estes pacientes muitas vezes são submetidos, reduzindo riscos e cargas para o sistema de saúde.
O evento é a sequência de um percurso iniciado em outubro passado no Cnel, quando os três promotores acordaram a necessidade de inserir a odontoiatria especial no Piano nazionale della prevenzione (Pnp) — o Plano Nacional de Prevenção — e de criar um tavolo tecnico nazionale dedicado às estratégias de prevenção e cuidados odontológicos para sujeitos frágeis. É uma proposta que quer transformar a atenção pontual em uma colheita contínua de hábitos saudáveis.
Para Magi, o cuidar passa por conhecer tanto a disfunção quanto a pessoa que a vive. “Além do conhecimento científico sobre a deficiência, é preciso conhecer a pessoa com deficiência”, afirmou, convocando profissionais a olhar além do prontuário. A formação, o atualização e a preparação prática são caminhos essenciais, sustentados pelo artigo 19 do Código de Deontologia Médica, que determina a “formação e atualização permanentes”. “Nunca devemos presumir que chegamos: é preciso estudar sempre, teoricamente e na experiência humana”, concluiu.
Como observador que transita entre paisagens e rotinas, vejo nessa discussão a respiração lenta de uma cidade que aprende a acolher. A saúde bucal de quem vive com fragilidade não é apenas um capítulo técnico; é um nó entre corpo, família e sociedade. A proposta de um tavolo técnico nacional e a inclusão no Pnp representam mais do que políticas: são a tentativa de sincronizar ritmos — o tempo interno do corpo e a pulsação das instituições — para colher melhores resultados.
O caminho adiante exige coordenação entre odontoiatras, higienistas, médicos, psicólogos, pedagogos, associações e famílias. Quando essas forças se articulam, a prevenção deixa de ser um esforço isolado e vira uma prática integrada que protege biograficamente e socialmente. Em termos práticos, menos intervenções urgentes significam menos anestesias, menos riscos e mais noites de sono para quem cuida.
O encontro na Câmara trouxe urgência e poesia à mesa: urgência de políticas que abraçam a fragilidade; poesia porque, ao cuidarmos melhor da boca, alimentamos também o sorriso da vida cotidiana. Seguir formando profissionais, envolver associações e escutar famílias é semear um horizonte onde a atenção odontológica especial deixa de ser exceção e se torna parte do cuidado cotidiano.






















