O caso do jovem neurocientista Matteo Ascenzi, internado no INMI Spallanzani, em Roma, após uma refeição à base de peixe cru em Anagni reacende uma questão que mistura culinária global e saúde pública: quando um prato apreciado como o sushi pode transformar-se em gatilho para uma hepatite aguda? Observando com a sensibilidade de quem traduz o ritmo das estações em sinais do corpo, o imunologista Mauro Minelli, docente de Nutrição Humana na Lum, lembra que a resposta costuma exigir uma investigação em pelo menos três níveis.
Primeiro, há a pista virológica. Frente a um insulto hepático explosivo após ingestão de frutos do mar, os vírus transmitidos por via oro-fecal — como o vírus A e o vírus E — são candidatos naturais. Neste cenário, o peixe (salmão, atum, robalo) raramente é o reservatório do agente, funcionando antes como um veículo: águas de armazenamento contaminadas, falhas na cadeia do frio ou manipulação sem higiene são as rotas mais prováveis. Não é preciso que o peixe seja o hospedeiro para que a infecção chegue ao consumidor; basta a contaminação durante o processamento ou o serviço.
O segundo nível contempla uma possibilidade menos frequente, porém documentada: a forma ectópica do anisakis. Habitualmente a anisakíase causa sintomas intestinais, mas, por meio de um dente cortante e enzimas que perfuram tecidos, a larva pode migrar e instalar-se fora do tubo digestivo, atingindo o fígado. Ali não provoca apenas uma ferida física, e sim uma reação inflamatória granulomatosa — o sistema imune envolve o parasita com um “muro” de células (eosinófilos, macrófagos) que, quando intenso, pode gerar lesões erosivas e o consequente aumento massivo das transaminases no sangue.
Por fim, existe um caminho de natureza imuno-alérgica: a sensibilização à tropomiosina Ani s3. Esta proteína do anisakis compartilha trechos comuns com alérgenos de ácaros da poeira, crustáceos, caracóis e até insetos sinantrópicos, gerando cross-reatividade. Em pessoas predispostas, a reação imunológica pode ser desproporcional e manifestar-se com sinais sistêmicos que imitam ou agravem um quadro hepático.
O alerta de Minelli, e aqui entra a minha observação sensível: não se trata de demonizar a tradição que trouxe sabores do mar para mesas ao redor do mundo, mas de cultivar uma colheita de hábitos mais consciente. A proteção vem da vigilância na origem das águas, do rigor na conservação e da higiene durante o preparo — é a respiração organizada da cadeia alimentar que preserva o tempo interno do corpo.
Na prática, frente a sintomas como icterícia, dor abdominal intensa, náuseas ou fadiga após consumo de peixe cru, a conduta é clara: procurar atendimento, realizar sorologias para hepatite A e E, exames laboratoriais (incluindo contagem de eosinófilos e transaminases) e, quando indicado, imagem médica para investigar lesões hepáticas ou sinais de parasitose. Para população vulnerável — imunossuprimidos, gestantes — a cautela deve ser ainda maior.
Como quem caminha por uma orla e observa as marés, proponho um equilíbrio: desfrutar do prazer gastronômico sem perder o respeito pelas regras básicas de segurança. É uma questão de cuidado comunitário, porque a saúde pública, como um campo cultivado, precisa de atenção constante para florescer.















