Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma cena que mistura a coragem cotidiana com a ternura de uma paisagem que se refaz, um homem de 37 anos, cidadão sérvio, tornou-se o primeiro doador em vida no país a oferecer dois órgãos simultaneamente para a própria filha. A pequena Sofija, nome fictício usado para preservar a identidade, de 7 anos, recebeu um rim e uma porção do fígado do pai em um procedimento histórico realizado no hospital Papa Giovanni XXIII, em Bergamo.
Após a cirurgia, pai e filha evoluíram bem e receberam alta do hospital ontem. A menina sofria de uma doença genética rara que afetava simultaneamente o fígado e os rins. Desde os 4 anos ela vivia submetida à diálise: inicialmente a diálise peritoneal domiciliar, com sessões que duravam entre 13 e 18 horas por dia; com o tempo, a condição exigiu a transição para a hemodiálise, restringindo ainda mais os movimentos e o cotidiano da família. O quadro clínico se agravou com o desenvolvimento de cirrose hepática, o que tornou necessária a busca por uma solução integrada.
O caminho até esse gesto tão generoso passou por avaliações rigorosas. A dupla — pai e filha — foi submetida a exames de avaliação de idoneidade e recebeu o parecer favorável da Comissão Regional de Parte Terza. O procedimento também contou com o nulla osta da Procuradoria de Bérgamo, garantindo a conformidade legal e ética do transplante combinado de doador vivo.
O resultado é a promessa de um novo outono na vida da família: embora a criança permaneça em Bergamo para controles nos próximos meses, os médicos acreditam que ela poderá levar uma vida praticamente normal. Para quem acompanhou os anos de tratamentos e as horas de máquina, essa transição soa como a lenta recuperação da respiração de um lugar que, por muito tempo, esteve em suspensão. A rotina exaustiva de diálises dará lugar, espera-se, aos ritmos próprios da infância.
Como observador atento das interações entre ambiente, saúde e estilo de vida, vejo neste episódio a força das raízes que sustentam o bem-estar: um gesto íntimo que transforma a geografia do corpo e da família, e que ressoa como uma estação nova que nasce após um inverno prolongado. Não se trata apenas de técnica médica impressionante — trata-se de uma escolha humana que restabelece possibilidades vitais.
A equipe médica do Papa Giovanni XXIII permanece atenta ao acompanhamento pós-operatório. Nos próximos meses, exames e avaliações periódicas vão monitorar a função do rim transplantado e a regeneração do fígado a partir do enxerto do doador vivo. A família, agora, colhe a promessa de dias em que passeios, escola e brincadeiras podem voltar a ser tão naturais quanto o respirar de uma cidade ao amanhecer.
Este caso marca um avanço na história dos transplantes na Itália, ampliando o leque de possibilidades terapêuticas para crianças com doenças multiorgânicas. E lembra, com delicadeza, que o bem-estar coletivo também nasce de escolhas íntimas, feitas ao ritmo da esperança e da coragem.
















