Sou Alessandro Vittorio Romano, e observo este episódio como um corte sensível na paisagem humana: um ato de amor que transforma o ritmo da casa e o tempo interno do corpo de uma criança. Em Bergamo, no hospital Papa Giovanni XXIII, a pequena Sofija recebeu de seu pai um rim e uma porção do fígado num único gesto cirúrgico. É o primeiro duplo transplante de órgãos realizado de doador vivo em toda a Itália.
A cirurgia combinada foi programada e executada pela equipe de Chirurgia 3 – trapianti addominali, dirigida por Domenico Pinelli. O pai, um cidadão sérvio de 37 anos, e a filha receberam alta ontem, depois de um período de recuperação inicial no próprio hospital. Os profissionais verificaram cuidadosamente a disponibilidade do pai e a compatibilidade entre doador e receptora, avaliando riscos e benefícios. Para o pai, os riscos foram considerados aceitáveis diante da perspectiva de devolver à menina qualidade de vida e esperança de futuro.
Sofija, de 7 anos, convivia desde a infância com uma doença genética rara que comprometia simultaneamente fígado e rins. Desde os 4 anos ela dependia da diálise peritoneal domiciliar, que consumia entre 13 e 18 horas por dia, e o quadro evoluiu para cirrose hepática, o que impossibilitava um transplante renal isolado. A decisão de buscar uma solução mais definitiva levou a família até Bergamo em outubro, após solicitação do ministério da Saúde da Sérvia.
O itinerário de um transplante de doador vivo na Itália é rigoroso: o processo exige o parecer favorável da ‘Comissão regional de terceira parte’ e o aval da Procuradoria de Bergamo, garantindo que a doação seja voluntária, bem informada e sem coerções externas. A família, que decidiu doar mais de dois anos atrás, veio acompanhada da mãe e contou com o suporte médico e ético durante todas as etapas.
Em palavras cheias de emoção, o pai afirmou que antes da cirurgia a menina se cansava facilmente e era obrigada a interromper os jogos para descansar. Hoje ele celebra que Sofija recuperou o apetite, a vontade de brincar e a liberdade dos movimentos sem cateteres. Agora ela poderá iniciar a escola como as demais crianças: mais leve, com a respiração da cidade voltando a lhe ser gentil.
O procedimento começou às 9h30 do dia 18 de dezembro e terminou às 3h37 do dia seguinte, totalizando 18 horas de operação. Em duas salas cirúrgicas adjacentes atuaram 6 cirurgiões, 7 anestesistas e cerca de 20 profissionais de enfermagem, num esforço coordenado que revela o nível elevado de especialização do hospital, sobretudo em transplantes pediátricos. A complexidade técnica refletiu-se na logística e na mão humana que, como raízes que sustentam uma árvore em crescimento, permitiu que a vida florescesse novamente para a menina.
Sofija permanecerá em Bergamo para consultas e monitorização nos próximos meses, mas os médicos esperam que ela leve uma vida regular. Este caso não é só um marco técnico: é a colheita de um hábito ancestral, o cuidado entre parentes que, como uma estação de primavera, traz renovação. E, enquanto observador, vejo nesta história um lembrete da força dos laços e da delicada respiração do bem-estar humano.
O sucesso desta intervenção confirma a capacidade italiana de combinar excelência cirúrgica com atenção pediátrica e ética médica. Para a família, ficou a gratidão; para a medicina, mais uma página escrita na busca de devolver à infância a leveza necessária para crescer.






















