Por Alessandro Vittorio Romano – A paisagem da medicina italiana está mudando com a mesma suavidade e força de uma maré que redesenha a costa: a onda rosa avança e, dentro de cinco anos, estima-se que seis médicos em cada dez em atividade serão mulheres. É o que mostram as projeções da demografia médica elaboradas pelo Ceo e pela FNOMCeO, divulgadas por ocasião do 8 de março.
O presidente da FNOMCeO, Filippo Anelli, aponta dois sinais que saltam aos olhos ao observar os números. O primeiro é o pico da chamada “giba das pensões”: estamos no ápice da onda de aposentadorias e a curva já começou a cair. São 52.563 os colegas, homens e mulheres, na faixa etária entre 65 e 69 anos, o que representa 12% do total dos médicos italianos. Ainda mais significativa é a faixa entre 70 e 74 anos, que corresponde a 14% – profissionais que se aposentaram recentemente ou optaram por prolongar a atividade, e onde os homens continuam sendo maioria.
O segundo sinal revela uma mudança de base geracional: entre os médicos com menos de 65 anos as colegas já representam quase 59%. Somando a isso o fato de que os ingressantes nos cursos de Medicina são majoritariamente mulheres, a projeção torna-se clara: a profissão médica seguirá se feminilizando nos próximos anos.
No total, entre os 431.150 médicos italianos, os homens ainda são maioria, com 52,5% — uma queda de meio ponto percentual em relação ao ano anterior. Mas se filtrarmos para os médicos com menos de 70 anos, a maioria já é feminina, com 55% (ante 53% no ano passado). Entre os profissionais com menos de 60 anos, as médicas são 59%, e entre os menores de 65, 58,7%.
A faixa entre 40 e 50 anos mostra a maior concentração feminina: as médicas correspondem a 63%, chegando a quase 64% entre os 45 e 49 anos. Nas idades entre 30 e 39 anos a presença feminina se mantém expressiva (entre 56 e 57%), enquanto entre os menos de 30 anos o diferencial se amplia ainda mais.
Como observador atento do cotidiano, vejo nessa transição não apenas números, mas um novo ritmo para o sistema de saúde — uma espécie de respiração da cidade que pede organização, sensibilidade e equilíbrio entre trabalho e vida. Anelli sublinha justamente essa necessidade: os modelos organizativos e os horários de trabalho devem contemplar a realidade de uma força de trabalho majoritariamente feminina, valorizando carreiras e permitindo conciliar responsabilidades profissionais e familiares, sem penalizar escalas já reduzidas. É preciso prever ausências por maternidade sem comprometer o serviço e investir em ambientes seguros.
Sobre segurança, a FNOMCeO lembra que no dia 12 de março, em Perugia, será celebrada a Giornata nazionale di educazione e prevenzione contro la violenza contra operadores sanitários e sociossanitários — uma iniciativa que reforça a urgência de políticas de prevenção e proteção.
Ao contemplar esses números, a sensação é a de uma colheita de hábitos que se transforma: a medicina italiana, talhada em raízes antigas, agora vê brotar um novo verde. Trata-se de ajustar estruturas e ritmos para que essa prosperidade não seja apenas estatística, mas se converta em qualidade de cuidado, bem-estar para quem trabalha e para quem recebe atenção. A onda rosa não é só uma mudança demográfica; é a promessa de um serviço de saúde que aprende a cuidar de si enquanto cuida dos outros.





















