Por Alessandro Vittorio Romano – Em Verona, a paisagem urbana respirou junto com uma história de resistência: Laura, 38 anos, que nasceu com apenas o ventrículo esquerdo do coração, tornou-se mãe da pequena Atena. Esta é uma narrativa que mistura ciência, coragem e o lento compasso da vida, como quando uma cidade muda de cor com as estações.
As mulheres portadoras de coração univentricular — ou, como se descreve de maneira mais coloquial, nascidas com metade do coração — que chegam à maternidade são ainda raras. Na literatura médica os casos relatados variam entre 30 e 50, o que torna cada nascimento um evento de atenção especializada e uma pequena colheita de esperança para a comunidade cardiológica e obstétrica.
O percurso de Laura começou em 2022 e foi marcado por obstáculos que testaram seu corpo e sua determinação: dois abortos espontâneos, arritmias graves que exigiram internações durante a gestação, três procedimentos cirúrgicos e um pós-parto complexo que resultou em 57 dias de hospitalização. A gravidez, para alguém com uma condição cardíaca assim, é um desafio que impõe ao corpo um esforço adicional — como pedir que uma árvore velha floresça em um terreno rochoso.
No mês de maio, quando as membranas se romperam prematuramente às 32 semanas e 4 dias, entrou em ação a equipe multidisciplinar da Azienda ospedaliera universitaria integrata di Verona, que havia traçado um percurso assistencial dedicado. A pequena Atena nasceu por cesariana, escolha pensada para reduzir o risco de hemorragia e a possibilidade de parada cardíaca sob anestesia geral.
Nos primeiros dias após o parto, a fragilidade do sistema elétrico cardíaco de Laura e episódios repetidos de desmaio levaram à necessidade do implante de um pacemaker três semanas após o nascimento. Esse dispositivo simboliza, de certa forma, a mão que a medicina estende para regular o compasso interno quando o corpo precisa de auxílio para acompanhar o ritmo da vida.
O pós-parto, como já mencionado, foi complexo e exigiu uma vigilância prolongada. Apesar dos desafios, a história conserva um traço de ternura: a chegada de Atena representa mais do que um bebê; é a promessa de cotidianos reconstruídos, onde cada pequeno gesto — a respiração tranquila de uma mãe, o sono intermitente de uma recém-nascida — lembra as estações que se renovam.
Como observador dos ritmos do corpo e da cidade, sinto que histórias como a de Laura nos lembram que a medicina é também um jardim em que se plantam cuidados, paciência e estratégias colaborativas. A equipe de Verona e os profissionais envolvidos traçaram um caminho onde a técnica e a sensibilidade caminham lado a lado, preservando a vida como quem protege uma muda frágil do vento.
Seguiremos atentos ao desfecho clínico e ao desenvolvimento da pequena Atena, celebrando cada marco como um retorno da primavera após um inverno rigoroso.
Nota: informações baseadas no relato disponibilizado pela equipe hospitalar de Verona; a matéria respeita os fatos divulgados publicamente.






















