Por Alessandro Vittorio Romano — Em um cenário em que a oncologia floresce como uma paisagem de novas ideias, surge também uma dissonância visível: a presença feminina é marcante nas bases, mas diminui à medida que se sobe na árvore das carreiras. Rossana Berardi, presidente eleita da Aiom (Associação Italiana de Oncologia Médica), chamou atenção para esse contraste durante um encontro promovido pela Sirm no Centro Diagnóstico Italiano, em Milão, com o apoio da Fundação Bracco, na Giornata internazionale delle donne e delle ragazze nella scienza.
“A IA já é realidade”, disse Berardi, lembrando que hoje cerca de dois terços dos ingressantes nas escolas de especialização em oncologia são mulheres. Porém, como uma maré que regride ao tocar a margem, essa maioria se inverte ao alcançar os patamares de comando: apenas cerca de 23% das mulheres ocupam cargos de direção de estruturas oncológicas e menos de 10% chegam a ser professoras titulares de Oncologia no panorama nacional. É um dado que não se pode ignorar, porque da diversidade — de vozes, idades e gêneros — nascem, muitas vezes, as soluções mais ricas.
Berardi, professora de Oncologia na Universidade Politécnica das Marche e diretora da Clínica Oncológica do AOU delle Marche, falou também sobre o papel emergente da inteligência artificial na prática oncológica. A IA, explicou, já se mostra concreta na projetualidade e na pesquisa, e como suporte aos pacientes nos percursos de diagnóstico e tratamento. Em especial, nas áreas de radiologia e anatomopatologia — pilares na definição das terapias — a tecnologia representa um avanço que profissionais estão incorporando com empenho.
Na prática científica, a inteligência artificial tem sido empregada para clusterizar pacientes: identificar subgrupos com prognósticos ou respostas terapêuticas distintas a partir de fatores clínicos, biológicos e moleculares. Também se revela útil para ordenar o volume crescente de informações trazidas pela biologia molecular, auxiliando na escolha da melhor terapia disponível. Ainda que, no cotidiano hospitalar, a aplicação rotineira da IA seja limitada, há um consenso de que ela pode ser um motor poderoso para o futuro.
Em resposta ao desequilíbrio de representação, a Aiom tem atuado de forma proativa. Berardi destacou mecanismos internos de verificação e controle para aumentar a inclusão de mulheres, jovens e diferentes representatividades geográficas nos programas científicos da associação. Foram criados três grupos de trabalho: um dedicado à oncologia de gênero, outro ao bem-estar dos profissionais de saúde e um terceiro voltado às novas tecnologias, com foco na inteligência artificial.
Como observador sensível das estações da vida, vejo essa questão como uma primavera ainda por completar: plantamos a semente da formação — com a maioria feminina nas especializações — mas é preciso nutrir solo, luz e caminhos para que essas profissionais cresçam até as copas. Promover equidade é, ao fim, cuidar das raízes do bem-estar coletivo. Se queremos que a oncologia colha inovação e humanidade, é preciso que suas lideranças reflitam a pluralidade de quem a constrói.
Dados, voz e tecnologia convergem hoje para redesenhar o futuro do cuidado. Cabe à comunidade científica e às instituições cultivar uma paisagem profissional onde talento e representação cresçam em uníssono — como a respiração ritmada de uma cidade que desperta para uma nova estação.






















