Por Alessandro Vittorio Romano — Quando a vida se organiza em ciclos de espera, como a sucessão de estações, cada quinze dias pode virar horizonte. Foi nesse compasso que a romana Barbara Bincoletto vivia até o fim de 2023: diagnosticada com mielofibrose em 2019, tornara-se refém das transfusões, uma a cada 15 dias, para tentar manter a hemoglobina em níveis suportáveis. “Riesco di nuovo a tenere in braccio mia nipote. Prima non ce la facevo” — palavras suas traduzidas em alívio: a combinação de afeto e capacidade física volta a existir. Em outras palavras, a respiração do corpo reencontra seu ritmo.
Barbara lembra dos dias em que não conseguia se manter em pé, em que tarefas simples — refazer a cama, cozinhar, sair de casa — tornavam-se montanhas. Havia uma sensação contínua de palpitação na cabeça que a impedia até de dormir com tranquilidade. “Arrivati agli sgoccioli del 2023”, ela conta, quando entrou num protocolo com um fármaco inovador. O resultado? Menos necessidade de transfusões e a possibilidade de retomar gestos cotidianos.
O medicamento em questão é o momelotinibe, um inibidor oral de Jak1/Jak2 e do receptor da ativina A tipo 1 (Acvr1), que, segundo nota da GSK, é o primeiro fármaco autorizado para tratar a splenomegalia ou sintomas relacionados em adultos com anemia de moderada a grave associada à mielofibrose. A novidade terapêutica não é apenas um comprimido: é uma pequena estação de mudança no tempo interno do corpo, que pode devolver autonomia a quem passou a viver em função de transfusões regulares.
“O que alcançamos é uma etapa importante”, afirma a professora associada de Hematologia Elena Rossi, da Universidade Católica do Sacro Cuore de Roma, responsável pelo Day Hospital de Hematologia do Policlinico Gemelli e que acompanha Barbara desde o início. Rossi observa que cerca de 40% dos pacientes com mielofibrose já apresentam anemia de moderada a grave no momento do diagnóstico, e quase todos a desenvolverão ao longo da doença, necessitando de cuidados de suporte como as transfusões.
Com o uso do momelotinibe, relata a hematologista, houve melhora nos níveis de hemoglobina, traduzida em independência e qualidade da rotina: voltar a cuidar de si e dos afetos, retomar atividades — é uma colheita de hábitos que favorece o bem-estar físico e emocional. Rossi lembra, contudo, que essa é uma conquista dentro de um quadro clínico ainda sério. A mielofibrose continua sendo uma neoplasia agressiva da medula óssea, a mais severa entre as neoplasias mieloproliferativas Ph-negativas.
Na Itália, estima-se cerca de 900 novos casos por ano, com maior incidência entre os 60 e 70 anos — uma idade em que muitos ainda estão ativos profissionalmente. O caminho da cura completa segue exigente e pede novas pesquisas e soluções complementares; o momelotinibe surge como peça importante desse mosaico terapêutico.
Para pacientes como Barbara, Mario, Andrea, Giuseppina — nomes que representam rostos e rotinas — a diferença é concreta: menos transfusões, mais braços para abraçar netos, noites com sono mais reparador. É um pequeno renascer no calendário pessoal, uma primavera íntima que devolve cor e fôlego ao dia a dia.
Enquanto seguimos observando as estações do corpo e da cidade, é reconfortante ver que avanços terapêuticos podem transformar o inverno da mente e do corpo em tempo de novas possibilidades. Resta, porém, acompanhar com prudência e continuar a pesquisa para que esse alívio dure e se amplie.






















