Por Alessandro Vittorio Romano — Em encontro com a imprensa promovido pela GSK em Milão, o professor Francesco Passamonti, diretor da Unidade Complexa de Hematologia da Fondazione Irccs Ca’ Granda Ospedale Maggiore Policlinico e docente de Hematologia na Universidade de Milão, apresentou um panorama promissor sobre o papel do Momelotinib no tratamento da mielofibrose. Com a sensibilidade de quem observa a saúde como um ecossistema, Passamonti explicou como esse medicamento traz um efeito diferenciado entre os inibidores de JAK disponíveis na Itália.
Enquanto os demais inibidores de JAK atuam principalmente sobre os sintomas e a redução da esplenomegalia, o Momelotinib combina a inibição de JAK1 e JAK2 com a capacidade única de bloquear uma via chamada ACVR1, implicada no desenvolvimento da anemia. Essa ação adicional traduz-se em um ganho real na hemoglobina dos pacientes, uma mudança que, nas palavras de Passamonti, se assemelha ao desabrochar de um pequeno broto após um inverno longo: é um sinal de que o organismo ganha fôlego.
Os estudos clínicos Simplify-1 e Simplify-2 foram decisivos para entender essa resposta. Segundo Passamonti, o efeito sobre os sintomas e o tamanho do baço é comparável ao observado com outros inibidores de JAK, mas o diferencial é a elevação dos valores de hemoglobina. Em muitos pacientes, a mediana sobe para entre 9 e 10 g/dL, podendo ultrapassar 10 g/dL ou registrar aumentos superiores a 1,5 g/dL. Para quem depende de transfusões, isso pode significar passar a ter menos necessidade delas — e, em alguns casos, alcançar a independência transfusional.
Do ponto de vista clínico, esse ganho é mais do que números: estudos mostram que pacientes que elevam a hemoglobina para valores superiores a 10 g/dL tendem a viver mais. Por isso, Passamonti enxerga o Momelotinib como um fármaco-chave no manejo da mielofibrose, inclusive como um ponte valiosa para o transplante alogênico de medula óssea. Chegar a um transplante com um fenótipo menos anêmico aumenta as chances de um desfecho melhor — é como entrar num terreno de plantio já bem preparado.
Além do benefício biológico, há um impacto social concreto: reduzir a necessidade de transfusões diminui o acúmulo de ferro no organismo (sovraccarico marziale), a carga logística das idas ao Day Hospital e o peso sobre os cuidadores. “Não resolvemos 100% dos casos — na medicina o 100% é raro —, mas melhoramos a condição de boa parte dos pacientes”, afirmou Passamonti. Em outras palavras, intervenções que elevam a hemoglobina devolvem energia, reduzem fadiga e reconectam a vida diária do paciente à sua própria respiração, como quando a cidade recupera seu ritmo tranquilo após uma chuva.
Como observador atento dos ciclos do corpo e da paisagem humana, vejo no Momelotinib não apenas uma nova opção terapêutica, mas uma mudança de estação no manejo da mielofibrose: uma luz que permite colher maior qualidade de vida e preparar melhor o terreno para passos decisivos, como o transplante.






















