Como um ritual antigo que acompanha a rotina italiana, o café voltou ao centro de um debate público inusitado em Milão — um verdadeiro “julgamento” que terminou com a absolvição da bebida: não constitui, em si, um perigo para a saúde pública, desde que consumido com prudência. Entre testemunhos, perícias e argumentos, a corte concluiu que o consumo orientativo não deve ultrapassar 3 xícaras por dia.
O evento foi promovido pelo Ordine dei Medici Chirurghi e Odontoiatri da província de Milão e reuniu nomes das esferas jurídica e médica: o presidente do Tribunal de Milão, Fabio Roia; a procuradora Tiziana Siciliano; as advogadas de defesa Ilaria Li Vigni e Giorgia Andreis; o perito e médico legista Umberto Genovese, além de diversos especialistas convidados. Ao fim do debate, a ‘Corte’ aplicou a absolvição nos termos do artigo 530, parágrafo 2, do Código de Processo Penal, rejeitando a acusação de que o café representaria um risco à saúde pública.
Os números ajudam a entender por que a questão é tão sentida: são cerca de 35 bilhões de xícaras consumidas anualmente na Itália, um gesto cotidiano que faz parte da respiração da cidade. Ainda assim, os especialistas fizeram ressalvas importantes: o consumo excessivo deve ser evitado. Para a maioria das pessoas, a orientação foi clara — não ultrapassar a marca de três xícaras diárias de café expresso ao estilo italiano.
Houve advertências específicas para grupos vulneráveis. Portadores de doenças cardiovasculares, pacientes com distúrbios neurológicos ou pessoas que sofrem de insônia crônica devem adotar cautela, já que a cafeína pode aumentar a pressão arterial, provocar palpitações e agravar problemas de sono. No caso de gestantes, a recomendação foi de moderação e acompanhamento médico. E, com voz firme, os especialistas descartaram qualquer consumo para crianças e adolescentes, apontando riscos ao desenvolvimento e à regulação do sono.
Como um jardineiro que conhece as estações, é preciso tratar o café como parte de um ecossistema diário: bem dosado, pode ser um estímulo prazeroso e seguro; em excesso, traz desgaste. A decisão do ‘processo’ não é um acerto final, mas um convite à medida e à atenção individualizada respeitando as raízes do bem-estar de cada corpo.
Para quem ama a bebida, a mensagem é também um conforto: o consumo moderado de café integra hábitos culturais e pode conviver com a saúde, desde que acompanhado de cuidado para quem tem condições clínicas especiais. Em um país em que o café é quase uma respiração urbana, saber dosar é cultivar uma colheita de saúde e prazer.






















