Por Alessandro Vittorio Romano — Um estudo da Hebrew University of Jerusalem, publicado em Cell Death & Disease, revela que o câncer de mama em mulheres portadoras de mutações BRCA1 e BRCA2 deixa marcas no genoma muito antes de qualquer lesão tumoral ser detectável. Essas marcas aparecem como rupturas de DNA em locais específicos — uma espécie de mapa de fragilidade que precede o tumor por anos.
Os pesquisadores analisaram células epiteliais mamárias aparentemente saudáveis, porém de alto risco, isoladas de mulheres portadoras das mutações. Ao traçar, pela primeira vez, um panorama completo das quebras de dupla hélice do DNA (DSB) nessas células, a equipe encontrou um padrão que não só difere profundamente do observado em células normais, como é surpreendentemente semelhante ao perfil encontrado em tumores mamários já estabelecidos.
As zonas frágeis são especialmente frequentes em genes já conhecidos por atuar como oncogenes e supressores tumorais. Curiosamente, esses genes mostram maior atividade transcricional — estão funcionando e, ao mesmo tempo, ficando mais expostos à lesão. Em linguagem poética do cotidiano: como árvores cujo vigor torna ramos mais suscetíveis a uma tempestade, esses genes ativos se tornam ao mesmo tempo úteis e vulneráveis.
Muitos dos genes atingidos precocemente pelas rupturas são os mesmos que, em estágios posteriores, apresentam mutações nos próprios tumores. Esse elo direto entre os defeitos iniciais de reparo do DNA e as mutações que impulsionam a progressão tumoral reforça o papel central da perda da recombinação homóloga mediada por BRCA na gênese do câncer de mama.
Rami Aqeilan, coordenador do estudo, resume em termos quase musicais: “identificamos uma verdadeira assinatura molecular que precede por anos o desenvolvimento do tumor”. Compreender esses primeiros eventos permite imaginar estratégias novas para detectar o câncer em fases muito precoces — quando a história pode ainda ser reescrita.
Na prática clínica, isso significa que identificar regiões genômicas sistematicamente danificadas antes do aparecimento do tumor pode abrir caminho para biomarcadores de risco e intervenções preventivas mais direcionadas. Para mulheres de alto risco, essas alternativas poderiam ampliar as opções para além da vigilância intensiva ou da cirurgia preventiva, oferecendo caminhos personalizados que respeitem o tempo interno de cada corpo.
Como observador que sente as estações da vida e os ritmos do corpo, penso que esta descoberta nos lembra que o organismo guarda anteparos — sinais sutis, impressões digitais do que pode vir. A pesquisa oferece uma paisagem mais clara sobre onde começar a cuidar: não só tratando o tumor já crescido, mas percebendo as raízes do bem-estar antes que o inverno da doença se instale.
Este avanço é mais do que um avanço técnico; é um convite à prevenção sensível, que combina ciência de ponta com atenção personalizada. A próxima colheita poderá ser de estratégias que interceptem o câncer no seu sopro inicial — e dêem às mulheres, e aos seus cuidadores, alternativas mais compassivas e eficazes.




















