Há um gesto simples e antigo que atravessa gerações como uma trilha de cheiro de pão recém-assado: ler em voz alta. No primeiro mercredi de fevereiro — este ano no dia 4 — o mundo celebra o World Read Aloud Day, a Giornata mondiale della lettura ad alta voce. É uma lembrança suave de que a leitura partilhada não é apenas um hábito educativo, mas pode tornar-se um verdadeiro ato de cuidado, sobretudo nos primeiros mil dias de vida.
Quem aponta isso é Cristina Panizza, conselheira da Federação nacional dos Ordini della professione ostetrica (Fnopo), que destaca a relevância dessa prática também no âmbito da saúde. Para Panizza, a leitura em voz alta amplia a paisagem afetiva antes mesmo do bebê nascer: “A Giornata mondiale della lettura ad alta voce tem como objetivo promover a importância da leitura em voz alta, especialmente como atividade familiar — explica —. É fundamental também em ambiente sanitario, porque ajuda a melhorar as capacidades cognitivas e emocionais das crianças, já do grembo materno”.
Quando lemos juntos, construímos algo que vai além das palavras — um espaço de relação, de respiração partilhada. A Fnopo sublinha que a leitura partilhada é um gesto que edifica laços e bem-estar: “A leitura em voz alta cria vínculos especiais e estimula o amor pelos livros, melhorando as habilidades linguísticas e a expressão oral”. E há um valor preventivo nesse gesto: ler em voz alta combate o analfabetismo e favorece laços emocionais e cognitivos mais sólidos tanto nos pais quanto nas crianças.
Essa alfabetização precoce não se limita ao desempenho escolar; é solo fértil que molda a maneira como a pessoa, no futuro, se orientará frente às informações de saúde. “Crianças que aprendem a ler tendem a ser mais informadas e saudáveis, também por uma melhor compreensão das normas higieno‑sanitárias”, afirma Panizza. É como semear no outono a capacidade de colher escolhas mais saudáveis na primavera da vida.
A prática da leitura em voz alta encaixa-se plenamente na chamada parentalidade responsiva, que reconhece o ambiente doméstico como peça-chave no desenvolvimento infantil. “O contexto doméstico e o ambiente familiar têm papel considerável na promoção dos processos de desenvolvimento cognitivo, linguístico e emocional da criança”, reforça a conselheira. Não se trata apenas de palavras: trata‑se de relação. Através da leitura se cultivam competências relacionais, consciência e gestão das emoções.
Às obstetras cabe o papel de motivar pais e família para transformar essa atividade em rotina no lar. Uma palavra surge com força: autoeficácia. A confiança do adulto no próprio papel é «o principal mosaico» para o crescimento da criança. “A voz e a comunicação são cuidado — diz Panizza —. Através da voz, a obstetra cria a relação de cuidado com a mulher e a família: comunica presença, afeto, calma e empatia”. Especialmente no puerpério, quando tudo é novo e frágil, a voz é uma âncora segura.
Em termos práticos, não é preciso ser leitor voraz ou seguir protocolos complexos: basta escolher um livro, um poema, até mesmo canções de berço, e reservar momentos do dia para ler em voz alta. É um gesto que nutre o corpo e a alma, ecoando como raízes no solo do desenvolvimento infantil. Ao transformar a leitura em um ritual de cuidado, estamos cuidando tanto da saúde das próximas gerações quanto da respiração íntima das famílias.
Neste World Read Aloud Day, a sugestão é ouvir com atenção a voz que se dirige ao ventre: cada palavra é como chuva fina que prepara o mundo interno da criança. Pela mão das obstetras e das famílias, a leitura em voz alta pode mesmo virar uma terapia suave, plantada desde o início da vida.






















