O risco de contrair o papillomavírus humano (HPV) cresceu entre os homens com mais de 45 anos, um grupo que até poucas décadas atrás era marginal na difusão da doença. A razão mistura história vacinal e a respiração da vida moderna: “a monogamia terminou e muitas pessoas se separam e fazem novas uniões”, explica Alvaro Vives, responsável pela Unidade de Infecções Sexualmente Transmissíveis da Fundação Puigvert.
Essa geração masculina não foi incluída no início das campanhas de vacinação contra o HPV, que inicialmente focalizaram meninas entre 9 e 14 anos por causa da associação direta com o câncer cervical — responsável por cerca de 95% desses casos. Ao longo dos anos, porém, descobriu-se que os homens não eram apenas vetores silenciosos: desenvolvem verrugas genitais e tumores associados ao vírus, especialmente na região anal, peniana e de cabeça e pescoço.
Dados recentes mostram uma prevalência de HPV em homens de 45,8%, superior à observada nas mulheres (40,1%). Parte desse movimento tem raiz na lacuna vacinal: homens hoje com mais de 40 anos cresceram sem essa proteção e, frequentemente, viveram mudanças nos padrões de relacionamento — casamentos e uniões mais curtos que os das gerações anteriores. Vives observa que muitos homens perto dos 50 anos se separam e retomam relações com uma ou mais parceiras, às vezes não vacinadas, aumentando assim a exposição.
A principal via de transmissão continua sendo a sexual: penetração vaginal ou anal, contato pele a pele na região genital e também o sexo oral. A incidência de câncer de cabeça e pescoço associado ao HPV tem aumentado de forma significativa entre homens de 60 a 70 anos, em sua maioria heterossexuais; prevê-se que até 2030 serão diagnosticados mais de um milhão de novos casos por ano. Já a taxa de câncer anal é dramaticamente mais alta — cerca de 44 vezes — entre homens que tiveram relações sexuais com outros homens.
Vives ressalta que o risco não é determinado pela orientação sexual, mas pelas práticas sexuais e pelo número de parceiros: “o comportamento, e não o rótulo, define o risco”. Por isso, ele não recomenda a vacinação massiva e indiscriminada de todos os homens acima de 45 anos. Em vez disso, aconselha uma avaliação individualizada: quem perde um parceiro estável e pretende iniciar relações com novos parceiros, ou adotar práticas de maior risco, deve consultar um especialista para avaliar a indicação da vacina.
Além da vacinação, a prevenção mais imediata e eficaz continua sendo o uso do preservativo, ainda que ele não elimine totalmente a transmissão por contato de pele. Em um mundo em que os ritmos sociais mudaram como as estações — com renovações e despedidas — a melhor estratégia é colher hábitos de proteção: diálogo com o médico, vacinação quando indicada e preservação nas práticas íntimas.
Em suma, o aumento do HPV entre homens over 45 é um reflexo das lacunas históricas da vacinação e de novos padrões de vida. A avaliação individual e a prevenção consciente são o solo fértil onde semear segurança e bem-estar.



















