ROMA, 23 de janeiro de 2026 — Na madrugada de 21 de janeiro, um episódio que lembra as rachaduras de um inverno mal cuidado voltou a abalar a psiquiatria italiana. Em um reparto do hospital de Rieti, um homem internado e em espera de transferência para uma REMS (Residenza per l’esecuzione delle misure di sicurezza) cometeu um homicídio, tirando a vida de outro paciente de 72 anos.
O fato reacende memórias dolorosas de um caso ocorrido há três anos em Pisa, quando a psiquiatra Barbara Capovani foi assassinada enquanto exercia seu trabalho. A coincidência das circunstâncias — unidades hospitalares psiquiátricas forçadas a reter indivíduos considerados socialmente perigosos, sem as salvaguardas e recursos necessários — levou os dirigentes profissionais a pedir, com firmeza e preocupação, uma revisão das soluções estruturais que hoje regulam a execução das medidas de segurança.
Os presidentes do Coordinamento nazionale dei servizi psichiatrici di diagnosi e cura, Emi Bondi e Giancarlo Cerveri, emitiram um apelo dirigido ao ministro da Saúde e ao ministro da Justiça: é urgente abrir um caminho de reforma da lei que determinou o encerramento dos antigos hospitais psiquiátricos judiciais (OPG), de modo a conciliar cura e segurança, em linha com as indicações já sugeridas pela Corte Constitucional. Eles afirmam que a sociedade científica está disponível para apresentar propostas e estratégias concretas.
Segundo os responsáveis do coordenação, os episódios de Rieti e Pisa mostram um padrão inquietante: unidades hospitalares sem recursos dedicados, sem tutele e sem a possibilidade de garantir cuidados adequados e proteção tanto para pacientes quanto para os profissionais. Em termos práticos, trata-se de um sistema que, por descompasso entre estruturas e necessidades, deixa expostas as pessoas mais vulneráveis e os que cuidam delas.
Como observador atento das tramas que unem ambiente e bem‑estar, sinto que este episódio é mais que uma notícia: é a consequência de raízes que não encontraram terra fértil. Quando a instituição que deveria acolher e reabilitar funciona como um corredor que se estreita, a respiração coletiva se torna difícil. A proposta dos especialistas é devolver ao sistema instrumentos que permitam tratar a complexidade — estruturas capazes de garantir tratamento especializado e, ao mesmo tempo, condições eficazes de segurança.
O apelo de Bondi e Cerveri não é apenas técnico, é também ético: pedir aos ministérios uma reforma é pedir que se reconheça a dignidade de pacientes e trabalhadores, que se reencontre um equilíbrio entre proteção social e cuidados clínicos. A disponibilidade a oferecer estratégias e projetos mostra que há mão de obra intelectual e prática pronta para semear soluções.
Enquanto o debate político e jurídico se desenrola, fica para as comunidades de cuidado a missão de cultivar medidas provisórias que reduzam riscos imediatos: avaliar fluxos de transferências, aumentar vagas em estruturas apropriadas, reforçar o suporte aos profissionais de linha e garantir triagens de risco mais eficientes. São intervenções que, como irrigação na colheita, podem prevenir novas tragédias.
Em suma, o caso de Rieti é um chamado urgente para repensar a arquitetura dos serviços de saúde mental: é preciso construir espaços onde a cura e a segurança cresçam em conjunto, como duas raízes que sustentam a mesma árvore. A proposta técnica existe — resta ao Estado acolhê‑la e regar o terreno onde o bem‑estar possa voltar a florescer.






















