Por Alessandro Vittorio Romano — Um tipo especial de gordura corporal, conhecido como gordura bege, mostra-se protagonista na manutenção da saúde dos vasos sanguíneos e no controle da pressão arterial, inclusive em situações sem excesso de peso. É o que revela um estudo experimental liderado por Masha Koenen e colegas da Rockefeller University, publicado na revista Science.
Pensar no tecido adiposo apenas como um depósito frio e inerte de energia é como olhar uma paisagem apenas pelo horizonte: falta perceber a respiração que vem de dentro. Nos últimos anos ficou claro que não é somente a quantidade de gordura que importa, mas a sua natureza. Enquanto o excesso de gordura branca costuma andar de mãos dadas com pressão elevada, o gordura marrom e a gordura bege — conhecidos por sua função termogênica — parecem oferecer uma colheita diferente para a saúde cardiovascular.
No trabalho, os pesquisadores focaram no tecido adiposo perivascular (PVAT), a camada de gordura que envolve os vasos sanguíneos. O PVAT apresenta características intermediárias entre a gordura branca e a marrom, mas seu papel específico na regulação da pressão ainda não estava totalmente decifrado.
Usando camundongos geneticamente modificados sem gordura bege funcional — pela remoção da proteína PRDM16, um regulador chave do processo de ‘beiging’ — a equipe observou mudanças profundas: remodelamento do PVAT, aumento da vasoconstrição, desenvolvimento de fibrose vascular e elevação da pressão arterial, mesmo na ausência de obesidade. É como se as raízes do bem-estar vascular tivessem sido arrancadas, deixando a planta vulnerável à secura.
Mais intrigante, a perda de PRDM16 levou à redução nos níveis circulantes da enzima QSOX1. Quando os cientistas eliminaram QSOX1 nos camundongos deficientes em PRDM16, a fibrose vascular foi prevenida, a função vascular normalizada e a pressão arterial reduzida — apontando para um mecanismo molecular direto por trás desses efeitos.
Os sinais vindos do laboratório encontram eco em dados humanos: uma meta-análise de estudos de associação genômica (GWAS) envolvendo três biobancos relacionou variantes do gene PRDM16 a valores mais altos de pressão arterial. Em outras palavras, o mapa genético confirma parte do que os modelos animais sugerem.
Especialistas que comentaram o estudo destacam que a ativação do tecido adiposo marrom — por meio da estabilização ou aumento da expressão de PRDM16 — pode trazer benefícios cardiovasculares. Ainda assim, como sempre na jornada entre descoberta e cuidado humano, serão necessários ensaios clínicos rigorosos para testar se estimular o ‘beiging’ do tecido adiposo reduz efetivamente eventos cardiovasculares adversos em pacientes.
Para quem, como eu, observa a cidade e os corpos como paisagens em transformação, a mensagem é reconfortante: o tecido adiposo é um ator dinâmico no palco da saúde, e a sua diversidade pode ser a chave para proteger nossos vasos — como se uma pequena reserva de calor interno acendesse defesas contra o frio da hipertensão.
Referência: Koenen M. et al., Science (2026). Estudo em modelos animais, Rockefeller University.






















