Por Alessandro Vittorio Romano — A respiração da cidade parecia prender a esperança naquela manhã de véspera de Natal. Mas o frio que chegou não era o do cuidado: era um frio errado, que congelou a possibilidade de recomeçar a vida de um menino. No dia 23 de dezembro, quando a central de transplantes sinalizou a disponibilidade de um coração vindo do Alto Adige, a equipe do Hospital Monaldi de Nápoles preparou-se para o que seria, para uma família, o milagre do Natal. Em vez disso, a notícia foi uma ferida.
Segundo reportagem do jornal Il Mattino, o coração pertencia a uma criança de 4 anos que havia falecido dias antes na Val Venosta, em Trentino. O receptor, um menino de 2 anos com uma grave cardiomiopatia desde o nascimento, aguardava o órgão com a fragilidade e a esperança de quem vive o tempo interno do corpo contado em batidas.
Ao abrir a bolsa destinada a manter o órgão durante o transporte, os médicos encontraram algo inesperado e danoso: em vez de gelo e solução de preservação mantidos a baixas temperaturas positivas, havia sido utilizado gelo seco — dióxido de carbono no estado sólido, com temperatura próxima a -78°C e presença comum em transportes de alimentos e nas gelaterias. Esse frio extremo não é compatível com os ritmos biológicos do tecido cardíaco e, ao contato, pode causar danos irreversíveis à estrutura delicada do órgão.
O resultado foi a inevitável decisão de cancelar o transplante de coração. A equipe médica avaliou que o órgão não estava em condições de viabilidade para o implante. Para a família do menino napolitano, que já havia recebido a autorização para a cirurgia, a notícia chegou como uma colheita de tristeza em pleno Dezembro. Para a equipe transplantadora, foi a perda de uma missão cumprida à beira da esperança.
Há, naturalmente, perguntas: como e por que foi usado gelo seco em lugar do método adequado de preservação? Segundo a reportagem, a bolsa refrigerante preparada em Bolzano continha o composto inadequado. Agora, são esperados esclarecimentos e uma apuração sobre responsabilidades. Fontes locais apontam que estão em curso verificações pelas autoridades competentes para entender falhas na cadeia de transporte e na logística da doação.
Mais do que um erro técnico, este episódio revela como a fragilidade do processo — a pequena distância entre sucesso e tragédia — depende de cuidados que muitas vezes operam nos bastidores. O ato de doar um órgão é uma semente de generosidade que precisa ser cultivada com protocolos rígidos. Quando uma etapa se perde, o inverno da mente invade os afetos: pais que sonharam com vida nova, profissionais que se colheram em prontidão, famílias que agora enfrentam o descompasso entre o que foi prometido e o que foi entregue.
Do ponto de vista prático, a preservação de órgãos para transplante exige temperaturas controladas em torno de poucos graus positivos, soluções específicas e embalagem projetada para manter a integridade do tecido. O uso de gelo seco — embora útil em outros contextos — representa um risco por serem temperaturas que excedem a tolerância celular do órgão.
Enquanto as investigações seguem, resta o cuidado com o que a cidade respira: protocolos revistos, responsabilidades esclarecidas e, sobretudo, medidas para que a cadeia de confiança não se quebre novamente. Porque, no final, cada transplante é mais do que um procedimento médico; é a colheita de vidas que dependem de um trabalho coordenado e terno.
Em tempo: o caso reacende o debate sobre a logística da doação na Itália e a necessidade de controles mais rígidos no transporte de órgãos. Para as famílias envolvidas, permanece a esperança de que novas batidas possam um dia voltar a ditar o ritmo do cotidiano.




















