Por Alessandro Vittorio Romano — A saúde mental e comportamental de crianças e adolescentes vem ocupando um espaço crescente no orçamento da saúde pediátrica nos Estados Unidos, segundo estudo da University of California San Francisco publicado na revista JAMA Pediatrics. Entre 2011 e 2022, os gastos com esse tipo de cuidado praticamente dobraram em participação, chegando a representar cerca de 40% de todas as despesas de saúde pediátrica em 2022, quase o dobro do registrado em 2011.
Ao observar a paisagem financeira como se fosse a respiração de uma cidade, os pesquisadores analisaram mais de uma década de dados nacionais sobre despesas de saúde para menores entre 6 e 17 anos. O levantamento mostra que os custos relacionados à saúde mental, ao uso de substâncias e a outros serviços comportamentais cresceram mais rapidamente do que as demais categorias médicas. Em particular, a parcela desembolsada diretamente pelas famílias aumentou em média 6,4% ao ano, frente aos 2,7% ao ano de evolução dos gastos não comportamentais.
No total, a despesa com saúde comportamental de menores atingiu US$ 41,8 bilhões em 2022. Desse montante, cerca de US$ 2,9 bilhões foram pagos diretamente pelas famílias, o que corresponde a mais de um quarto de todo o gasto “out of pocket” em saúde pediátrica. Esta é uma colheita de números que revela também um efeito humano: ter pelo menos um filho com necessidades de cuidado comportamental aumenta substancialmente o risco de dificuldades econômicas no núcleo familiar.
Os autores estimam que famílias com ao menos uma criança que precisa de atenção comportamental apresentam probabilidade superior em 60% de enfrentar um alto ônus financeiro e em 40% de suportar um ônus extremo — definido como despesas de saúde superiores a 10% da renda familiar. Em outras palavras, o crescimento desses gastos não é apenas um fenômeno macroeconômico; é um peso sentido no cotidiano, nas contas e nas escolhas das famílias.
O estudo não busca atribuir causas de forma conclusiva, mas os dados apontam para uma combinação de fatores: um aumento na prevalência aparente de problemas de saúde mental entre jovens — intensificado em parte pelos efeitos da pandemia de COVID-19 — elevação dos custos por procedimento e uma ampliação do acesso aos serviços, impulsionada pela redução do estigma e pela expansão de estruturas comunitárias de apoio.
Também houve mudanças claras na forma como o cuidado é oferecido, como se a própria paisagem do serviço de saúde tivesse mudado de relevo. A despesa com serviços domiciliares cresceu, em média, 25% ao ano, enquanto as visitas ambulatoriais presenciais subiram cerca de 11% ao ano. Entre 2020 e 2022, as consultas por telemedicina praticamente explodiram, com aumento médio de 99% ao ano, sinalizando uma transformação estrutural na organização do atendimento à saúde mental infantil e adolescente.
Como observador atento das rotinas e estações da vida, vejo neste cenário uma tensão entre maior reconhecimento e acesso — que é positivo — e um desafio social que exige políticas e redes de proteção mais robustas, para que não sejam as famílias as únicas a colher o peso financeiro desse cuidado essencial. Em termos práticos, o resultado é um convite para que gestores, comunidades e profissionais pensem em soluções que protejam tanto o bem-estar emocional dos jovens quanto a estabilidade econômica das famílias que os sustentam.



















